Ainda amargando os prejuízos provocados pela crise econômica mundial, a indústria de transformação de Bauru e outros 16 municípios da região fechou fevereiro com corte de aproximadamente 700 postos de trabalho. O recuo no nível de emprego, na comparação com janeiro, chegou a 2,75%, a maior variação mensal registrada nos últimos três anos, segundo levantamento do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Com isso, o setor, que registra a terceira queda consecutiva de empregos, soma 1.080 vagas fechadas desde dezembro do ano passado, levando-se em consideração o volume de contratações e demissões no período. Quando a crise se agravou no País, em outubro de 2008, as empresas dos 17 municípios abrangidos pela diretoria regional do Ciesp de Bauru ainda resistiram e obtiveram índice positivo de 0,9% na variação mensal do nível de emprego.
O bom resultado se manteve até novembro, quando houve desempenho positivo de 0,7% ante o mês anterior. Já em dezembro, a regional perdeu 180 vagas. Em janeiro de 2009, foram extintos 200 postos de trabalho e, em fevereiro, mais 700.
De acordo com o diretor regional do Ciesp em Bauru, Domingos Malandrino, o resultado de fevereiro deste ano foi influenciado, principalmente, pelas demissões dos setores de veículos automotores e auto-peças, que sofreu uma variação de -15,25%, em razão da efetivação de grande parte dos desligamentos que atingiram as empresas Volvo e Pedertractor, de Pederneiras.
Na região, o resultado também reflete o aumento do desemprego no setor de produtos de borracha e plástico (variação de -6,25%) e de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-2,58%). “São empresas que dependem muito do mercado externo. Então estão tendo problemas sérios. E, infelizmente, a gente não tem como saber até quando essa situação vai perdurar”, lamenta, ressaltando que o índice só não foi pior devido à variação positiva de 2,47% no setor de produtos químicos.
Tarde demais
Dos 15 setores analisados, na área do Ciesp de Bauru 10 tiveram desempenho negativo, dois se mantiveram estáveis e três contrataram mais do que demitiram. Para Malandrino, os números ruins poderiam ter sido evitados se o governo federal tivesse tomado medidas mais eficazes logo que a crise se instalou. Ele explica que, em comparação aos demais países, a crise demorou a desembarcar no Brasil mas, quando chegou, nos atingiu com maior intensidade.
“Somos o segundo país mais atingido pela crise. O Banco Central demorou para baixar os juros, o Copom (Comitê de Política Monetária) continua se reunindo a cada 40 dias, o que é descabido. É impossível analisar detalhadamente o que está acontecendo e tomar medidas efetivas em reuniões com um intervalo tão grande como esse”, pontua.
Anteontem, o governo federal anunciou a redução da taxa Selic em 1,5 ponto percentual, de 12,75% para 12,25% ao ano, a maior queda desde 2003. Mas Malandrino teme que a medida tenha sido tomada tarde demais.
“É a mesma coisa que dar chá de camomila para um paciente que já está na UTI. Os juros básicos em países como Estados Unidos, Japão, Grã-Bretanha e Alemanha não passa de 1%. Isso, para mim, é um abuso contra o empreendedor brasileiro”, reclama.
Para o diretor regional da Fiesp em Bauru, José Luiz Miranda Simonelli, o corte da taxa de juros poderá representar, pelo menos, o início da trajetória de recuperação da indústria no Brasil. No entanto, para que a reestruturação seja plena, ele acredita que as quedas terão de ser mais expressivas. “Enquanto o consumidor não tiver acesso ao crédito, a indústria, que está muito estocada, não vai se movimentar. E esse crédito depende, e muito, de uma redução maior da taxa básica de juros, que terá de chegar, no mínimo, a 8% ao ano”, comenta.
A pesquisa do Ciesp/Fiesp analisou aproximadamente 3 mil indústrias distribuídas no Estado de São Paulo, que empregam cerca de 1,1 milhão de trabalhadores. De acordo com o levantamento, a Capital teve variação negativa de 1,55% no total de empregados, de janeiro a fevereiro deste ano. No Estado de São Paulo, a redução foi de 1,80%. Entre as Diretorias do Ciesp vizinhas a Bauru, a única que obteve desempenho positivo foi Jaú, com melhora de 0,71% no nível de emprego.