Que o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (USP), o Centrinho, é referência na América do Sul em tratamento de anomalias craniofaciais, ninguém questiona. Agora, o objetivo é ampliar essa atuação e implantar um programa específico para o tratamento de cardiopatia congênita infantil - uma anormalidade da estrutura ou função do coração.
O novo prédio da instituição, cujas obras estavam paralisadas desde 2000 e foram retomadas há cerca de um mês, contempla uma unidade semi-intensiva para tratar do problema. Se tudo correr bem e o cronograma atual for seguido à risca, em junho do próximo ano já começa a funcionar o programa das cardiopatias congênitas infantis com atendimentos clínicos e cirúrgicos no hospital novo.
Mais uma vez, é o superintendente da instituição, doutor José Alberto de Souza Freitas, conhecido por tio Gastão, quem articula a nova conquista. “Há muito tempo, fizemos uma homenagem ao professor Zerbini (Euryclides de Jesus Zerbini, cardiologista internacionalmente conhecido por ter realizado o primeiro transplante de coração do Brasil). Quando ele foi agradecer, disse que normalmente quando se tem uma fissura na face, tem-se uma fissura no coração.”
Ele admite que, inicialmente, imaginou que as palavras do amigo se resumissem a uma figura poética, em referência à dor enfrentada pelas mães. Mas não era. Crianças com deficiências na face têm quatro vezes mais chance de também sofrer de alguma cardiopatia congênita, uma vez que a formação da face ocorre numa fase muito próxima a do coração. No Centrinho, dentre todos os matriculados, 1,3% do total sofre com cardiopatia. Outros 13% têm outras anomalias e síndromes. Do total de indivíduos com cardiopatia, 89% tem múltiplas anomalias e 11% sofre com fissura de lábio e/ou palato sem outras anomalias.
Abrangente
Mas quando o programa estiver funcionando, acolherá crianças com problemas no coração que não necessariamente tenham alguma malformação na face, por exemplo.
“A função do tio Gastão é vivenciar o drama dessas mães e buscar atender as expectativas em todas as áreas. Por que desenvolver essa área dentro do novo complexo hospitalar? Não tem um hospital específico para criança”, comenta o superintendente com o reconhecido carisma. Atualmente, quando uma cardiopatia congênita é identificada num paciente do Centrinho, ele é encaminhado ao Incor, em São Paulo.
Trata-se de um hospital público universitário de alta complexidade, especializado em cardiologia e também campo de ensino e de pesquisa para a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
“Há muito tempo, nós fizemos um convênio específico com o Incor. Era para o Incor implantar aqui a cardiopatia congênita infantil. Mas a velocidade para terminar o prédio foi lenta. Reiniciaram-se as obras e já foi discutido com a Secretaria do Estado da Saúde a implementação do programa. Esse é um sonho que está acalentado faz tempo”, finaliza tio Gastão.
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Parceria com instituições de ponta
A idéia do tio Gastão para implantar o programa de cardiopatia congênita infantil do Centrinho inclui estabelecer convênios com hospitais de ponta em cardiologia. Ele cita como exemplo o Incor, o Hcor, o Hospital Sírio-Libanês, o Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, a Beneficência Portuguesa e o Hospital das Clínicas de São José de Rio Preto.
“Não quero transformar o programa numa referência. Quero trabalhar com hospitais de referência mundial. Vou ter uma semana aqui o pessoal do Incor, do Hcor, do Dante. Mas específico para criança”, explica. De acordo com o superintendente do Centrinho, hospitais como o Sírio-Libanês e a Beneficência Portuguesa foram transformados em filantrópicos há pouco tempo. No entanto, não precisam atender 60% de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).
“O que eles combinaram é transferência de tecnologia. Isso abriu uma porta para que possam atuar junto conosco. Hoje eles têm programas de gestão, que já são oferecidos para hospitais no Norte, Nordeste. No nosso caso, seria uma parceria de transferência, mas de trabalho conjunto, evidentemente sendo um centro formador de recursos humanos”, explica. Deste modo, o Centrinho seria capaz de formar um cirurgião cardíaco pediátrico, por exemplo.
“Vai ser fantástico e um negócio que o Brasil necessita”, ressalta. Se a idéia entrar para sua lista de realizações, crianças que precisam permanecer internadas até a cirurgia do coração seriam atendidas no Centrinho. “Isso seria um sonho”, acrescenta.
A idéia ainda será apresentada, no momento oportuno, tanto à Secretaria do Estado da Saúde quanto aos eventuais parceiros. Por enquanto, o Centrinho está adquirindo um ecocardiograma dôpler em quatro dimensões, que também deverá ser usado no “predião”, quando estiver concluído.
O restante dos equipamentos necessários será detalhado pelo novo parceiro, sendo que o investimento ainda não foi estimado.