Nacional

Só 13% das ligações ao 190 são ocorrências


| Tempo de leitura: 4 min

São Paulo - “Polícia Militar, emergência!” A voz é de um dos 50 policiais que fazem o atendimento no Centro de Operações da PM (Copom) ou 190 - porta de entrada da segurança pública de São Paulo. O serviço recebe 35 mil ligações por dia, em média. Mas só 13% se referem a ocorrências policiais - e menos ainda resultam no envio de viatura. Mais de 30 mil registros, 87% das chamadas, são engano (31%), pedido de orientações sobre outros serviços públicos (30%), trotes (21%) e chamadas para o Corpo de Bombeiros (5%). Há quem ligue até para saber quando termina o horário de verão.

Para a PM, esses números explicam por que, na percepção de grande parte dos paulistanos, o serviço de emergência não funciona. Para entender os principais problemas, a reportagem passou um dia na sala do Copom.

O sistema de informações operacionais da PM só está integrado aos bombeiros. Ou seja, se o contribuinte liga em busca de outro serviço, acaba frustrado. “Em emergência de saúde, tenho de passar a vergonha de pedir que se telefone para o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). O mesmo ocorre com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET)”, diz o tenente Cleodato Moisés do Nascimento, chefe do Copom. “Às vezes mandamos a viatura por ser mais rápido. Mas isso desvia os policiais da segurança. Já fizemos até parto.”

No dia em que a reportagem esteve no Copom, uma policial ajudou uma mãe que chorava e mal conseguia falar a salvar seu bebê engasgado. “A senhora deve colocá-lo de bruços e dar tapinhas nas costas. Virou? Ele está respirando?”, dizia a soldado. Mais de 10 mil chamadas diárias ao 190 se referem a serviços como captura de animais, queda de árvores e falta de luz. “Se o Psiu (central municipal para denúncia de poluição sonora) funcionasse, a demanda cairia 14%. Se as pessoas soubessem o número do Samu, as ligações ao 190 seriam reduzidas em 9%.”

Mas o “calo no sapato do Copom” são os trotes, segundo o tenente Moisés. São 700 diariamente. E existem os fraudadores profissionais - desde janeiro, o 190 recebeu de um mesmo número mais de 8 mil ligações falsas. No dia em que a reportagem esteve no Copom, a mesma pessoa fez 16 ligações ao 190 entre 12h53 e 16h57 - policiais em diligência nada encontraram no local. Segundo o tenente, a polícia já pegou casos em que bandidos usam o trote para desviar as viaturas para o lado oposto de onde pretendem fazer um assalto. “Quando recebemos muitas ligações para a mesma área, é bom ficar de olho”, diz. “E há quem telefone para ameaçar um vizinho ou namorado, levando a polícia até eles com denúncia falsa.”

A identificação é dificultada pelo uso do celular. “As companhias telefônicas demoram para identificar o dono da linha. E uma das empresas, com sede no Rio, se recusa a fornecer a informação”, explica o tenente. Por lei, as companhias são obrigadas a fornecer os dados à polícia. “Se formos atrás disso, não fazemos a segurança.”

Outra dificuldade é que, nesse caso, só é possível a prisão em flagrante, pois não há como provar quem fez a ligação. E a pena, de 1 a 6 meses de prisão, pode ser revertida em multa. “Não serve de exemplo”, diz o tenente. “Se o número é fixo ou de orelhão, e temos viatura disponível, damos um susto no sujeito.”

Os policiais que trabalham no 190 devem ser pacientes - quem liga pode estar em perigo e raramente tem tranquilidade para passar as informações -, têm de ser capazes de identificar, pelo tom da voz no outro lado da linha, se a solicitação é urgente e precisam conhecer os quase 380 mil logradouros da cidade como a palma da mão. Mas não é sempre assim. Entre os atendentes estão policiais formados e temporários.

Há 1.800 viaturas em serviço simultaneamente na capital. Para definir aonde irão, as ocorrências são classificadas como normal (sem risco físico), urgente (com risco) e pré-ocorrência (fato grave no momento da ligação). “O cobertor é curto; temos de dar prioridade aos casos”, diz o major Alfredo Deak Junior, assessor de Tecnologia da Secretaria da Segurança Pública.

Comentários

Comentários