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Fio do bigode ainda resiste no comércio

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Houve um tempo em que a palavra empenhada dispensava a assinatura em um pedaço de papel. Os envolvidos no negócio seguiam à risca o que haviam combinado. Era uma questão de honra. Era o tempo do fio do bigode. Diz a lenda que quando dois ou mais homens assumiam um compromisso, o documento que valia era um fio do próprio bigode.

Era uma demonstração de que eles honrariam suas obrigações, ou seja, o fio do bigode simbolizava que a pessoa tinha um nome a preservar e faria isso mesmo a custa de muito sacrifício, se fosse preciso.

Com o tempo, o bigode saiu de moda. Poucos homens passaram a usá-los. Assim como também parece ter saído de moda a preocupação em manter o nome limpo e honrar os compromissos assumidos. Muitas pessoas passaram a não dar importância para isso. No entanto, ainda hoje, existem homens (e também mulheres) que valorizam o fio do bigode. São pessoas que, mesmo não ostentando os pêlos no rosto, preocupam-se em preservar sua honra perante terceiros, que cumprem seus compromissos e pagam as contas em dia.

São pessoas que têm crédito na praça, que se dão “ao luxo” de chegar a um estabelecimento comercial, principalmente nos bairros, comprar o que estão precisando e mandar pôr na conta. São os adeptos da caderneta, que fez muito sucesso no passado, mas caiu em desuso no presente, em grande parte por causa dos caloteiros que andam soltos por aí e não dão a mínima bola para esse papo de fio do bigode.

O vendedor Osvaldo Alquati Júnior ainda mantém a tradição de anotar as compras na caderneta, assim como faziam os pais dele. Sempre que precisa, sua esposa, a filha de 12 anos ou ele próprio passa na mercearia perto de sua casa, pega o que está faltando e, ao invés de pagar pelos produtos, saca do bolso a caderneta como se fosse um cartão de crédito e entrega para o dono do estabelecimento. O dono anota o valor da compra e devolve a caderneta para o cliente. E todo dia 20, Osvaldo vai à mercearia para zerar a conta. Às vezes, acontece de atrasar dois ou três dias, mas nunca deixou de pagar, nos quatro anos em que compra fiado no local.

“Meu avô já ensinava para nós a importância de honrar nossos compromissos, de sermos honestos. Acho que isso vem de berço”, comenta Alquati Júnior. “É gostoso quando você sabe que as pessoas confiam em você.”

Para o vendedor, além de poder comprar confiando no “fio do bigode”, como antigamente, outro diferencial dos pequenos estabelecimentos comerciais localizados nos bairros é o relacionamento entre clientes e comerciantes. “É um relacionamento de amizade. Não é simplesmente uma relação comercial. A gente torna-se amigo”, diz.

Quem também utiliza-se do “fio do bigode” para fazer negócio é o frentista Márcio Gutenberg. Ele diz ter herdado dos pais a preocupação em ter o nome sempre limpo. Em sua opinião, “a credibilidade é tudo”. “Posso não ter dinheiro, mas ando de cabeça erguida, sem ter vergonha de nada nem de ninguém”, afirma.

Ele conta que, quando era criança, notava que a mãe não sossegava enquanto não pagava todas as dívidas. Segundo o frentista, foi uma lição de vida, cujos ensinamentos procura pôr em prática sempre. Gutenberg é casado, tem dois filhos pequenos e diz que vai passar os valores adiante, para que os filhos também tenham tal preocupação. Afinal de contas, não existe escola melhor do que o próprio lar.

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Cartaz diz: ‘Por causa de alguém, não vendemos fiado a ninguém’

Durante cerca de 13 anos, Célia Shiraishi manteve a tradição de vender fiado em sua mercearia, no Jardim Marambá. Mas o prejuízo por confiar na palavra de alguns clientes foi tão grande que, há dois anos, ela decidiu abolir completamente a caderneta. Compras, agora, só pagando à vista. Um folha pregada na parede com uma frase escrita a mão deixa claro o recado para os consumidores. “Por causa de alguém, não vendemos fiado a ninguém”, diz o cartaz improvisado.

Pelas contas de Célia, daria para comprar um “carro velho” com o dinheiro que ela tem a receber dos clientes que levaram produtos e não pagaram até hoje. Algumas contas atrasadas chegam a R$ 300,00, segundo a comerciante. Ela diz que os calotes vieram de pessoas que moram no bairro e estavam sempre na mercearia, mas hoje, quando passam em frente ao estabelecimento, mudam de calçada.

Célia conta que quando vendia fiado, era comum chegar no fim do dia com o caixa vazio. “Depois de um dia inteiro vendendo, à tarde eu não tinha recebido nada, não havia dinheiro no caixa. Era desesperador”, relata.

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No capitalismo, honra das pessoas não tem mais valor como fiadora

A prática de anotar as compras dos clientes em um caderno, caderneta ou ficha já foi muito mais comum no passado. Quase toda família tinha esse privilégio. Mas as turbulências econômicas e morais que se seguiram, a partir dos anos 1980, tornaram essa prática insustentável, segundo o antropólogo Cláudio Bertolli Filho.

Filho de pais que usaram muito a caderneta, ele explica que o primeiro golpe contra o fiado veio com a disseminação da “lei de Gérson”, aquela que fala de um esporte bastante apreciado pelo brasileiro: o de querer levar vantagem em tudo. “Não podemos negar que isso levou a uma crise de confiança muito grande”, pondera.

Mas o golpe que derrubou o fiado foi a inflação alta. “No fim dos anos 1980, a inflação chegava a 100% ao mês. Não dava para comprar no dia 1 para pagar no dia 30. O comerciante perdia muito e isso restringiu o uso da caderneta”, lembra o antropólogo.

Bertolli cita também a impessoalidade que tomou conta da relação de consumo, principalmente após o aparecimento das grandes lojas. Por causa do preço mais baixo, elas “roubaram” os clientes das mercearias, açougues, padarias e minimercados dos bairros.

Segundo o antropólogo, o comércio ganhou caráter impessoal. Os comerciantes deixaram de conhecer sua clientela. “Essa impessoalidade levou ao fim da cadernetas”, afirma. “Passamos a observar que, cada vez mais, as relações econômicas passaram a ser regidas exclusivamente com a ética econômica e não mais entrelaçadas com valores tradicionais”, observa.

Em sua opinião, o fim da caderneta também significa uma sociedade plenamente capitalista. A honra de uma pessoa passou a não valer mais como fiadora. O importante é ter documentos assinados. “A palavra empenhada deixa de existir, as relações capitalistas acabam com isso. Agora só os documentos jurídicos passam a mediar a relação entre os homens, mesmo entre aqueles mais próximos.”

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