O feriado de 15 de novembro foi comemorado no rancho do Washington Justo. Tratar aquilo de rancho é até pejorativo. É uma mini-mansão, localizada nas barrancas de um braço do Rio Tietê, em Pongaí. Mais precisamente, no bairro Sucuri.
Como de costume em descansos prolongados a festa é total. A carninha queimava no espeto desde a chegada do pessoal. Tio Anacleto, sentado num banquinho, um pouco retirado do grupo, está a pensar. Mão no queixo. Olhar distante. A esposa Val lhe questiona:
- Que lhe aconteceu veio?
Anacleto ao ser questionado, parece voltar a si. Dá de ombros e permanece no seu devaneio.
Certamente, após tantas inquietações da semana, estava pensando no sabiá que há dois dias não cantava na goiabeira. Refletia em voz audível:
- Será que morreu? “Argum” moleque o feriu? “Vorta” Viola!
Até já apelidara o pássaro. E continuou a olhar o céu azul.
Neste instante, quatro pombas sobrevoam próximo ao local. Babozo ladra sem parar. As aves espantam-se e expelem uma massa pastosa por desaforo.
Que infelicidade! O cocô cai justamente no chapéu de tio Anacleto.
- Raios! Danada “di” pomba! “Si” pego mato essa desaforada. Muito bravo, retira-se do lugar e sai em direção ao rio. Nesse momento, Viola sobrevoa ao redor do rancho e vai sentar-se, todo satisfeito, na goiabeira.
A barranca do rio estava apinhada de pescadores. Tio Anacleto levou Rabadanzinho para dar banho nas minhocas. Eram péssimos fisgadores. Sempre voltavam com o “dedo tolado”, no dizer da gíria ribeirinha.
Por incrível que possa parecer Anacleto fisga um trairão na primeira puxada. Foi aquela festa. Até os pescadores dos arredores vieram ver o tamanho da bicha. Era uma das maiores que se havia pescado no Sucuri.
A tarde estava perfeita para a pesca. Sem sol, uma garoa fina, suportável. A única perturbação era o incansável vai-e-vem de Rabadanzinho. E o falatório então?
Tio Anacleto mais parecia uma máquina. Apanha um lambari atrás do outro. Pescava com a mão direita, com a mão esquerda e lá vinha o peixinho fisgado. O pessoal até deixou de pescar para ver as peripécias do Tio Anacleto.
- O “home” é uma fera! Dizia um.
- Ô loco, cara! Eu nunca vi igual. Esse véio ganharia até do Oswaldo Caçador de Bauru.
Oswaldo Caçador, de saudosa memória , ex-vereador. Um dos melhores pescadores que Bauru conheceu. Pescador dos ótimos, embora, de nome Caçador.
Anacleto, satisfeito, contemplava a platéia. Esquecera-se até do Viola o sabiá. Nunca vira tanta gente assobiando a seu respeito. A última vez que o “ovacionaram” fora, justamente, na derrota do Curintinha do Patrimônio, naquela sua estratégica saída de campo, dentro do camburão da polícia; única forma de protegê-lo da torcida enfurecida.
Após apanhar outro exemplar de traíra, tio Anacleto observa que seus peixes estavam desaparecendo do picuá. Chama Rabadanzinho para próximo de si e vai ralhando:
- Onde “ocê” tá pondo os “pexe”, “muleque”? O samburá “tava” cheio. Já não tá mais. Quem “pegô” meus lambari?
- Foi Taíra, tio. Responde o menino.
- Que Traíra, nada. Eu peguei tanto e ela tá do mesmo tamanho. Se tivesse “cumido tudu meus pexe”, ela “tava” barriguda. Foi você né?
- Foi Taíra, tio. Eu juro!
Anacleto apanha seu picuá. Enrola suas varas. Apanha Rabadanzinho pelas orelhas e, retira-se lastimando sem compreender o desaparecimento dos lambaris.
Nesse ínterim, adentra à mata, correndo, um japonezinho. No seu encalço quatro pescadores gritando:
- Pega “muleque”! Pega “muleque” danado!
O jovenzinho japonês era um brincalhão. Estava fazendo escola de humorismo com o seu pai o Professor Takenori Taíra que, naquela temporada, estava com o circo armado nas beiradas do Sucuri...
Tomás Alpresi dos Santos, pescador e contador de histórias.