Política

SP terá 9 mil novas vagas no ensino

Fábio Zambeli Da APJ, especial para o JC
| Tempo de leitura: 8 min

Quatro meses após assumir o cargo, no auge da crise econômica mundial, o secretário estadual de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin (PSDB), avalia que o Estado dá sinais de reação à turbulência e anuncia um novo pacote para aumentar a “empregabilidade”. O conjunto de medidas contempla a criação de 9,6 mil vagas noturnas no ensino técnico em 45 cidades, utilizando a rede física de escolas do Estado.

“É exatamente neste momento de crise que se tem que redobrar o esforço, seja na qualificação profissional, no desenvolvimento humano, na formação técnica e tecnológica, enfim, fazer um esforço ainda maior”, afirma o ex-governador.

Em entrevista à Associação Paulista de Jornais (APJ), o tucano diz que as ações do governo paulista para socorrer a economia se diferenciam das do governo federal pela consistência. “É importante separarmos discurso de ação. Uma coisa é você falar, outra é você agir. O que estamos anunciando, por exemplo, tem um cronograma. Então, você tem o começo, o meio e o fim”, afirma o tucano.

Alckmin, líder nas pesquisas de intenção de voto pelo Palácio dos Bandeirantes em 2010, nega que esteja em campanha pelo cargo, embora admita que irá intensificar suas maratonas pelo Interior - todas, ele garante, a trabalho. “Nós não misturamos as coisas. Quem faz campanha 24 horas é o Lula. Nós não. Estamos é procurando trabalhar. Eu nunca fiz uma reunião partidária, política. O que nós fazemos são compromissos de trabalho.”

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Associação Paulista de Jornais - Qual o critério utilizado para definir quais cursos seriam oferecidos em cada cidade?

Geraldo Alckmin - A demanda regional. Esse é o critério. O eixo indústria vai ser feito nas próprias Etecs (escolas técnicas), pois demanda laboratórios. Agora, o eixo serviços, fazemos na própria escola, porque na realidade, vamos comprar 50 computadores por escola para ter laboratório de informática. E rápido. Em vez de construir prédios, que demoraria dois anos, fazendo projeto, licitação... Perderíamos tempo e gastaríamos muito dinheiro, quando tem muito prédio vazio e com salas que não são utilizadas à noite.

APJ - Por que se verifica esse fenômeno?

Alckmin - Antigamente, 80% do ensino médio era à noite. Hoje, 60% é de dia. Portanto, não há mais aquela defasagem do aluno com a idade dele. Então, você tem muita escola vazia à noite. Vamos utilizar a estrutura. E exatamente o curso técnico tem que ser à noite, pois muitos trabalham de dia. E alta empregabilidade, a cada cinco formandos, quatro são empregados.

APJ - Serão necessárias obras para adaptar as salas?

Alckmin - Estamos projetando investimentos de R$ 20 milhões, mais em laboratórios de informática. Em sala, não, as salas são comuns. Não há necessidade, é mais a parte de equipamentos, no Estado inteiro, nas escolas estaduais.

APJ - E qual será a economia para o Estado?

Alckmin - Cada escola custaria, em média, quase R$ 6 milhões. Quer dizer, nós vamos abrir 9 mil vagas gastando R$ 20 milhões. E na verdade, são mais vagas, porque temos vestibulinho a cada seis meses. São 28 mil vagas abertas no período.

APJ - O senhor avalia que esse tipo de ação é suficiente para o enfrentamento ao desemprego em tempos de crise?

Alckmin - O melhor investimento para combater a crise é o desenvolvimento humano. É você investir nas pessoas. E hoje, o que está acontecendo? Você tem muita faculdade que a pessoa gasta um dinheirão, estuda cinco anos e depois não vai exercer a sua profissão. Tanto que o País precisa de técnicos e tecnólogos. E eles são bem remunerados, porque há uma procura muito grande.

APJ - E as Fatecs? Há previsão de ampliação?

Alckmin - No caso das Fatecs (faculdades de tecnologia), eram 26. Vão ser 52. Dobrou. Veja, no caso da Etec, a empregabilidade é 78%, no caso da Fatec, 94%. São escolas de muito boa qualidade, todas do Centro Paula Souza.

APJ - Qual o papel da Secretaria da Educação nesse processo, visto que os prédios são de responsabilidade dela?

Alckmin - Nós só compartilhamos o prédio da Secretaria da Educação, que, aliás, tem sido grande parceira. É bom para aproveitar melhor os equipamentos públicos, tem mais segurança, estrutura, prédio. Porque há, à noite, muita ociosidade.

APJ - De que maneira o Estado tem agido para atender, com esses cursos, as vocações regionais?

Alckmin - Isso é feito permanentemente. Para você ter ideia, pagamos o bônus para professores, funcionários e diretores das Etecs e Fatecs, na semana passada. O bônus é pago pela qualidade das escolas. Qual o critério? O aprendizado, o aluno e o egresso, quer dizer, o aluno que saiu daquela Etec, conseguiu emprego? O curso foi importante para seu desempenho profissional? Essa é a lógica. Ele é voltado ao setor produtivo. É a demanda.

APJ - E, na avaliação do senhor, esse processo pode se aprofundar?

Alckmin - Sim. Por exemplo, em São José dos Campos, setor aeronáutico, aeroespacial. No Litoral, petróleo e gás. No ABC, termoplástico, automotivo. Em Franca, sapato. Em Americana, têxtil. Em Sorocaba, metal mecânico. Em Campinas, tecnologia da informação. E também serviços: comércio, administração, contabilidade, marketing. Enfim, serviços, que é o que mais cresce hoje.

APJ - Haverá interface com os parques tecnológicos?

Alckmin - Onde houverparque, estamos procurando fazer com que as Etecs e Fatecs fiquem até dentro dos parques tecnológicos. É o ideal, mas hoje só acontece em São José. Agora, temos poucos parques ainda. Funcionando mesmo temos São José e São Carlos. Mas a ideia é ter uma rede de parques e isso será importante.

APJ - A exemplo da equipe econômica do governo federal, o senhor acredita que o pior da crise econômica já passou?

Alckmin - Eu diria que começou a reagir. A curva começou a mudar. Em vez de perder o emprego, se começa a recuperar o emprego. Mas ainda lentamente. Eu diria que as coisas vão melhorar mais no segundo semestre e no ano que vem.

APJ - Como o senhor analisa o resultado das ações empreendidas pelo governo estadual no enfrentamento da crise?

Alckmin - É exatamente neste momento de crise que se tem que redobrar o esforço, seja na qualificação profissional, no desenvolvimento humano, na formação técnica e tecnológica, enfim, fazer um esforço ainda maior. O governo do Estado vai investir, este ano, R$ 20,6 bilhões. Infraestrutura, logística, obras. Isso gera muito emprego direto, indireto e induzido. Eu diria que o pior momento está passando, mas não podemos nos iludir. O crescimento não será em 24 horas. Ele vai melhorar mais lentamente, este ano. E acredito num crescimento mais forte no ano que vem.

APJ - Esse esforço que o senhor menciona de enfrentamento da crise pode ser contaminado pela agenda eleitoral? Em âmbito estadual e federal?

Alckmin - É importante separarmos discurso de ação. Uma coisa é você falar, outra é você agir. O que estamos anunciando, por exemplo, tem um cronograma. Dia 5 de junho abrimos inscrição, 12 de julho vestibulinho e 3 de agosto, a aula começa. Então, você tem o começo, o meio e o fim. São medidas muito concretas e efetivas. Há um abismo entre o falar e o fazer. São Paulo está procurando fazer sua parte. Nós não temos política monetária, a taxa de juros é federal, a política cambial é federal, mas estamos fazendo um esforço grande aqui.

APJ - O senhor lidera as pesquisas de intenção de voto para o governo do Estado em 2010. Como avalia esses números e a ansiedade que se cria no PSDB para se definir o quadro eleitoral?

Alckmin - Eu fico muito feliz. Isso é uma prova de reconhecimento, de confiança. Me deixa muito alegre e mostra que o povo paulista tem uma enorme confiança no nosso trabalho. Agora, eleição é só no ano que vem. Agora é trabalhar o máximo, fazer bem feito o que estamos fazendo, cuidar com responsabilidade das tarefas de São Paulo, aqui na secretaria, que tenho a honra de servir.

APJ - Como o senhor reage aos questionamentos, feitos principalmente pela oposição, de que o senhor estaria em pré-campanha ao intensificar o ritmo de reuniões e eventos com prefeitos e lideranças partidárias paulistas?

Alckmin - Nós não misturamos as coisas. Quem faz campanha 24 horas é o Lula. Nós não. Estamos é procurando trabalhar. Eu nunca fiz uma reunião partidária, política. O que nós fazemos são compromissos de trabalho. Por exemplo, eu fui a Sorocaba. Fazer o quê? Visitar a Fatec, ver obra, expor a agência de desenvolvimento. Fui ao Vale do Paraíba para inaugurar a Etec de Cachoeira Paulista, fomos a Lorena na Santa Casa. Quer dizer, são medidas administrativas, concretas. A questão eleitoral é importante, mas ela tem o seu momento. Ainda não é o momento.

____________________

Expansão contemplará 45 cidades

O pacote de medidas anunciado pelo governo estadual para o ensino técnico é fruto de convênio firmado com o Centro Paula Souza. Com o uso de salas ociosas da rede estadual no período noturno, serão 9.265 vagas em todo o Estado. O processo seletivo será realizado em julho. As inscrições terminaram na última sexta-feira. As turmas começam em agosto. O projeto abrange 45 municípios.

O sistema prevê classes descentralizadas. Em vez de construir uma nova escola técnica, criam-se turmas aproveitando a infra-estrutura já existente. Cada escola atuará em conjunto com a Etec mais próxima, que será responsável pelos cursos.

A Secretaria da Educação indicou ao governo as unidades com salas disponíveis, que foram vistoriadas para conferir as condições e avaliar adaptações necessárias para a instalação dos cursos técnicos. O Estado planeja injetar R$ 20 milhões em aparelhamento das escolas com laboratórios - principalmente de informática.

Cada escola estadual abrirá até três turmas por semestre e oferecerá até três cursos. Serão 12 modalidades ofertadas, com duração de três semestres: administração, logística, contabilidade, secretariado, marketing, comércio, serviços judiciários, seguros, serviços imobiliários, informática, informática para internet e redes de computadores. Cada turma terá 40 alunos.

O Centro Paula Souza administra 157 Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) e 46 Faculdades de Tecnologia (Fatecs) em mais de 160 cidades paulistas.

Comentários

Comentários