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Entrevista da semana: Denise Pereira Carvalho

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Como acontece com muitas mulheres, a empresária Denise Pereira Carvalho se separou do marido ainda jovem e se viu com a difícil tarefa de criar os filhos. Mas não estava sozinha: ela tinha o apoio dos pais, além de criatividade, coragem para batalhar pela vida e criação das crianças, além de sorte e determinação. Assim começou, há 25 anos, a trajetória de sucesso da dona das lojas SLA Fashion.

Os desafios sempre foram bem-vindos e superados por Denise. Ela afirma que vê nos obstáculos uma forma de superação e de incentivo para a criatividade e inovação capazes de impulsionar as vendas no comércio.

Batalhas vencidas, filhos criados e a vida ganha. A empresária de fibra se sente realizada e feliz com a família que conseguiu criar e com a profissão. Humilde, ela diz não ver no dinheiro a força motivadora da sua luta e conquistas, mas sim nos filhos e no amor ao trabalho.

Leia os principais trechos da entrevista que Denise concedeu ao Jornal da Cidade, em que ela fala, entre outras coisas, sobre dedicação e amor ao trabalho, admiração pelo pai, importância dos três filhos em sua vida, além da sua trajetória pelo comércio local.

Jornal da Cidade - Por que você decidiu trabalhar com venda de confecções?

Denise Pereira Carvalho - Eu havia terminado meu casamento e tinha filhos para criar. Foi quando meu pai me deu a idéia de vender roupas e eu achei uma boa alternativa. No início, vendia as peças em casa mesmo, fui fazendo minha clientela e, quando notei, já tinha muitas clientes. O espaço de casa ficou pequeno porque eu tinha três crianças. Então, decidi abrir uma loja.

JC - Quando montou sua primeira loja?

Denise - Acho que era 1982. Tudo foi consequência. Como estava com uma clientela boa e pouco espaço em casa, conversei com meu pai e abri a loja na rua dos Andradas, onde fiquei por cinco anos. Um tempo depois, uma moça veio até mim, disse que gostaria de revender roupas da loja e topei. Cheguei a ter mais de 50 revendedoras em Bauru e região. Buscava roupas em São Paulo e elas me visitavam, a cada 15 dias, para acertar a última compra e levar mais peças. Muitas lojas da cidade, hoje, são de pessoas que começaram vendendo para nós.

JC - Você teve ajuda de alguém no início da jornada?

Denise - Sempre do meu pai. Foi ele quem me deu todo o tipo de apoio, seja financeiro, emocional ou mesmo com mão-de-obra. Ele foi o meu herói.

JC - Por que o nome SLA Fashion?

Denise - A loja tem esse nome por causa dos meus filhos, Suzel, Luciana e Augusto.

JC - Quantas lojas vocês têm hoje?

Denise - Quatro lojas e a confecção, que leva a marca SLA.

JC - Por que a idéia de montar uma confecção própria?

Denise - Há alguns anos, fabricávamos em escala menor. Comprei máquinas de costura e não sabia nem colocar a linha. Fui aprendendo devagar e quem me ensinou mesmo foi o moço que vendeu as máquinas. Um tempo depois, a loja cresceu e, como não tínhamos mais espaço para a confecção, deixamos as máquinas apenas para ajustes. Hoje, temos a confecção para ter um diferencial, mas nosso carro-chefe é a marca Seiki.

JC - Você imaginou que teria sucesso com o comércio?

Denise - Não. Nunca imaginei. Como disse, tudo foi conseqüência. Passo a passo, as coisas foram acontecendo. Fiquei com as vendedoras por cinco anos. Foi quando houve uma mudança de governo e a inflação estava altíssima. Eu não conseguia mais repassar as roupas para elas porque as mesmas ganhavam em torno de 50% das vendas e não estávamos mais conseguindo manter esse valor.

JC - Você enfrentou grandes dificuldades no início?

Denise - Sim, foram tempos difíceis. Naquela época, eu fazia tudo praticamente sozinha. Buscava as roupas em São Paulo, vendia, limpava, organizava e administrava a loja. Nunca quis ser uma grande empresária. Não pensava no amanhã. As coisas foram acontecendo. Mas sempre tive o apoio do meu pai. Ele me perguntava sobre o que eu estava precisando e nunca fazia perguntas sobre o porquê. Me ajudava e pronto. Não sei o que teria sido de mim sem ele.

JC - Então, qual era o seu objetivo?

Denise - Criar meus filhos. Era eu quem pagava as contas.

JC - Quando as coisas começaram a melhorar?

Denise - A impressão que tenho é que tudo foi se encaixando. Meu pai fez minha primeira vitrine e isso chamou a atenção das clientes. As vendas aumentaram em 100%. Mas, começamos a crescer mesmo quando passei a vender apenas roupas da Seiki. Já estava cansada de ficar “garimpando” em São Paulo, aí optei por vender apenas uma marca.

JC - Você tinha tempo para o lazer?

Denise - Naquela época, eu nem sabia o que era isso. Cuidava da loja, dos filhos e da casa. Minha vida era muito corrida.

JC - Hoje as coisas mudaram?

Denise - Não muito. Mas eu tenho mais tempo e dinheiro para viagens. Já fui para a China, Argentina e Caribe. Viajo pelo Brasil também. Conheço alguns lugares do Nordeste, do Sul.

JC - O que as mulheres buscam quando entram em uma loja de roupas?

Denise - Com o passar dos anos, percebi que uma coisa não muda nunca: a mulher sempre quer ficar bonita e se sentir bem quando compra roupas. Vendemos do clássico ao jovial e acho que isso faz a diferença. O que mudou é que, hoje, as roupas estão mais práticas, muitas nem precisam ser passadas.

JC - E o comércio, mudou ao longo dos anos?

Denise - Eu vejo que conquistamos nosso espaço. Hoje em dia, a concorrência é muito grande. Para abrir uma loja de confecção e prosperar, tem que contar com a sorte, entre outras coisas. É preciso ter organização e fazer as coisas funcionarem certo. Mas as coisas se encaixam com o tempo e perseverança.

JC - Vocês têm sofrido com a crise econômica?

Denise - Com certeza, o comércio todo sofre. Mas precisamos inovar. Já passei por tantas crises e vejo nessas dificuldades uma oportunidade de melhorar, de criar alternativas para crescer.

JC - Qual é a fórmula do sucesso empresarial?

Denise - Dedicação e muito trabalho. Você não pode desanimar quando as coisas não estão indo bem. Por exemplo, passei por dias difíceis em que não vendia nada. Mas persisti, tive fé e coragem. Buscava alternativas e soluções para driblar as crises. Promoções e inovações sempre foram as alternativas que deram certo.

JC - Você acredita que “a propaganda é a alma do negócio”?

Denise - Nosso meio de divulgação, são as vitrines, catálogos, Internet e jornal impresso. Me lembro de uma frase que ouvi certa vez de um publicitário: “quem não é visto, não é lembrado”. Ele tinha razão.

JC - Como é sua relação com os clientes?

Denise - Acredito que deve ser tão boa a ponto da vendedora se tornar amiga da cliente. Passo isso para as meninas que vendem para nós. É fundamental saber o que a cliente quer.

JC - Seus filhos ajudam no negócio da família?

Denise - Sim, ensinei tudo para eles. Os três trabalham comigo e cada um tem uma loja. Sempre sentamos para conversar e discutir soluções, mas a palavra final ainda é minha. Acho muito importante que os filhos saibam como os negócios da família funcionam, pois já vi muitas empresas falirem depois que os donos morrem, porque não ensinaram aos filhos como cuidar direito dos negócios. Se é familiar, os filhos precisam saber como a empresa funciona.

JC - Como é o seu relacionamento com eles?

Denise - Muito bom. Conversamos não só sobre negócios, mas sobre a vida. Sempre que posso estou com eles e com minha neta.

JC - Você é apaixonada pelo trabalho?

Denise - Sim. Eu gosto de “inventar moda” e não tenho paciência de ficar parada. Estou sempre buscando inovações, mas não para ganhar mais dinheiro, eu gosto mesmo é de trabalhar. Hoje, todas as lojas estão informatizadas e isso fez com que o administrativo e o financeiro ficassem “redondos”. Me vi, praticamente, sem ter o que fazer. Foi quando tive a idéia de montar uma loja só de ternos para empresas. Por incrível que pareça, o dono da Seiki estava com idéia de montar uma coleção assim.

JC - Quantos funcionários você emprega hoje?

Denise - Comecei sozinha, depois meus filhos me ajudaram e, hoje, estamos com cerca de 30 funcionários.

JC- Quais são os projetos futuros?

Denise - Estou com um projeto futurista para a construção de uma nova loja. Ela será moderna e bem diferente das outras. O que tenho em mente é muito conforto para o cliente.

JC - Se pudesse voltar no tempo, mudaria algo do que fez?

Denise - Acho que não mudaria nada. Graças a Deus quando coloco a cabeça no travesseiro, durmo tranqüila com a sensação de que não ficou nada para trás.

JC - Você se sente realizada com tudo o que construiu?

Denise - Tudo o que fiz foi apenas pensando em meus filhos e na formação deles. Então, minha felicidade é vê-los bem.

JC- Quem é a Denise?

Denise - Sou uma mulher que não vê obstáculos. Não deixo para amanhã o que eu posso fazer hoje. Essa sempre foi minha meta. Por exemplo, se a calçada estivesse suja, eu não deixava para o outro dia, não ia para casa enquanto não deixasse em ordem. E ainda hoje é assim, não vou embora se houver algo pendente na loja.

JC - Qual é o conselho que você dá para quem está começando?

Denise - Persistência e sempre fazer tudo com o coração. Nada deve ser feito pensando apenas no dinheiro. É preciso trabalhar com amor e gostar daquilo que se faz.

JC - Você ganhou muito dinheiro nesses 25 anos de SLA?

Denise - Não sei o que é muito dinheiro. Mas criei meus filhos e todos estão bem. Pude dar um apartamento para a Luciana, que vai se casar agora. Mas nada mudou o meu jeito simples de ser. Gosto de brincar com as meninas que trabalham comigo, almoço com elas sempre e gosto de ser assim.

JC - O que você faz quando não está trabalhando?

Denise - Estou lendo o diário que meu pai escreveu durante 47 anos. Ele fala sobre nossa família, dificuldades, alegrias e histórias ao longo dos anos. Ele não sabia escrever. Fez um curso de escrita por correspondência e passou a escrever um diário para treinar. Era um guerreiro e sempre me espelhei nele.

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