As comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente serviram para avivar a consciência das ameaças ao nosso planeta e da necessidade imperiosa de mudarmos atitudes e comportamentos se quisermos que nossos descendentes possam contar com os recursos naturais que Deus nos deu, como é o caso da água doce, indispensável à nossa vida e que caminha para a extinção.
Apelos insistentes vêm sendo feitos para economizarmos a água e protegermos os mananciais e os rios, mas o sentimento comum é que eles estão tendo pouca eficácia. Quem efetivamente vem se preocupando com quanta água consome no banho ou deixando de lavar a calçada, de plantar cana até a beira dos rios, de desmatar, enfim, quem está deixando de fazer as coisas que desperdiçam água e prejudicam as nascentes e os rios? Não que nada venha sendo feito ou que esses apelos estejam errados, mas parece que, a continuar assim, apenas estaremos retardando o final trágico.
O efeito das medidas recomendadas para economizar a água é de natureza econômica. Evitando vazamentos, usando água servida para lavar as calçadas, mantendo as torneiras fechadas enquanto se escova os dentes, sendo mais rápido nos banhos, tudo isso diminui o consumo e a conta no final do mês. Também colabora para que o serviço de abastecimento possa atender a mais pessoas sem precisar aumentar as despesas e investimentos.
Na década de 1950, quando a Prefeitura funcionava no edifício Concórdia, na rua 1.º de Agosto, uma senhora reclamava da conta que estava alta e dizia ao funcionário que a água não devia custar nada, porque tinha sido dada por Deus. O funcionário respondeu: sim, Deus deu lá na mina, mas para chegar limpinha até a sua casa a prefeitura teve que gastar dinheiro. Mas, com economia ou sem economia, a água continua o seu fluxo em direção ao mar e evaporando. As fontes continuam minguando e os rios vão secando.
Mais do que economizar no uso da água é preciso que haja uma agenda positiva forte na produção da água doce, se assim podemos dizer das ações que possam manter as nascentes e os rios sempre vivos. A proteção dos mananciais e a manutenção das matas ciliares ou seu reflorestamento com plantas nativas, onde foram extintas, são medidas que “produzem” água doce. Há pouco tempo, a televisão exibiu uma reportagem onde um sitiante aprendeu a revitalizar as nascentes da sua propriedade. Uma pequena barragem evitava erosão e assoreamento e isolava a área do pisoteamento de animais. Árvores nativas eram plantadas em seu entorno. Fontes quase extintas voltaram a jorrar água. Contente com o sucesso, o sitiante passou a ensinar os seus vizinhos a “produzir” água.
Embora se fale em consumo da água, ela não é realmente consumida, ela é usada durante o seu ciclo contínuo de mudança de estado físico. Vai ao ar como vapor e volta líquida como chuva para formar os lençóis freáticos e aqüíferos, de onde brota para formar os rios ou é extraída por poços. A devastação das florestas e o aumento das áreas impermeabilizadas por telhados e superfícies pavimentadas têm diminuído as áreas de absorção das chuvas, fazendo com que a água precipitada escorra para os rios em direção ao mar. É assim que a “produção” de água vem diminuindo. A simples economia no uso não vai solucionar esse problema. As medidas são aquelas outras que também são recomendadas: combate ao desmatamento e reflorestamento para aumentar as áreas de absorção e proteção das nascentes e das matas ciliares. Mas isso não se consegue apenas com apelos ou campanhas. A preservação dos recursos naturais deve ser um programa permanente de governo, integrado pela União, Estados e municípios, partindo da educação das crianças para formar uma consciência coletiva, de modo que as atitudes e atos de preservação sejam espontâneos. Isso leva tempo e tem que ser amparado por medidas legais, impositivas, que já existem. Somente não são respeitadas e estão querendo desmontá-las, segundo a senadora Marina Silva.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.