Articulistas

O jornalista e o cozinheiro

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Jornalista ou cozinheiro. Nenhum dos dois precisa de diploma para redigir algumas mal traçadas ou estrelar ovos. O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, justificou com esse conceito o seu voto em favor da extinção da obrigatoriedade do diploma universitário para quem quiser trabalhar em jornalismo. Tem suas razões. Para o feijão-com-arroz nem é preciso muito conhecimento técnico, embora seja difícil preparar o caldo encorpado, bem temperado, associado a um arroz solto, mas úmido, e desprendendo aromas. Igual ao da mamãe que nunca fez faculdade.

Na cozinha ou na redação, o importante é que se trabalhe com senso de responsabilidade e com a dignidade de fazer o melhor. Nem precisa ir ao extremo daquele cozinheiro de Luiz XIV que se suicidou porque o peixe encomendado para o banquete do rei não ficou pronto na hora certa. Mas, há que ter o cuidado de se abeberar nas fontes mais frescas, estudar, investigar e acrescentar algo novo. Temos que avançar culturalmente. O legendário Craig Claybourne, crítico de alta cozinha no New York Times, jornalista formado pela Columbia University, foi fazer culinária na Bélgica e trabalhou como ajudante de cozinha nos melhores restaurantes do mundo para escrever com mais propriedade. Era o terror dos restaurantes estrelados. Capaz de distinguir se o cozinheiro havia usado margarina, em vez de manteiga, na sauce hollandaise. Um desrespeito a quem paga achando que está consumindo o melhor.

No frigir dos ovos, para jornalistas e cozinheiros, a desregulamentação profissional não muda nada. Continuará no mercado quem tiver competência e sensibilidade, qualidades que a lei jamais conseguirá regular. O curioso é que todos os ministros do STF justificaram o voto contra o diploma como se estivessem interessados na liberdade de expressão. É um absurdo relacionar a exigência do diploma com a limitação à livre expressão do pensamento. A idéia é romântica e ultrapassada. A julgar pela argumentação dos ministros, eles acreditam que ser jornalista e trabalhar num veículo de comunicação significa expressar livremente o pensamento. Ou seja, não têm noção clara do trabalho deste profissional. Acham que o jornalista tem como função manifestar seu pensamento. Existe uma linha editorial em cada órgão de comunicação. O fazer técnico e o ideológico são indissociáveis. Quem não seguir o projeto editorial está fora. Existe, é evidente, casos excepcionais e muito específicos. Por exemplo, a redação de artigos e crônicas, gêneros, aliás, abertos a qualquer pessoa, com ou sem diploma. Esta liberdade se dá em nome do pluralismo. A sociedade é plural. Existem várias correntes de opinião e todas elas devem ser contempladas no meio de comunicação, por isso mesmo chamado de “social”. Os meios impressos são os que mais acatam o princípio. Na televisão a prática é menosprezada. O povo só aparece em rápidas falas, somente para confirmar o que a editoria havia pautado.

Os jornalistas sequer têm o direito de chorar a maionese que desandou. A categoria foi incapaz de se articular com força contra os empresários e a mídia, que há muito vêm promovendo um poderoso lobby, não só contra o diploma como também contra e lei de imprensa. Quem tem o discurso, tem o poder. O discurso é de quem detém o capital, contra a tibieza dos trabalhadores nas instâncias do poder.

Segundo ameaça o presidente do STF, outras profissões “não-técnicas” também vão ser desregulamentadas. Os universitários de “humanas” nada têm a temer. Por trás da sentença irrecorrível há uma inequívoca valorização da formação específica, permitindo que enriqueçam as redações também profissionais especializados em outras áreas, quando eles forem necessários. Além de jornalistas, a mídia contrata, e não é de agora, comentaristas esportivos, analistas econômicos, ou consultores médicos, entre outros, para dar às suas reportagens e opiniões a respeitabilidade e a credibilidade que tais temas demandam. Pelo mesmo raciocínio, as empresas jornalísticas e as assessorias de imprensa continuarão contratando especialistas em comunicação, ou seja, jornalistas para as funções em que eles são necessários. É isso o que ocorre em todo o mundo. A obrigatoriedade do diploma, em termos globais, é mais uma exceção do que uma regra.

Profissionais qualificados, responsáveis, éticos e criativos, cozinheiros ou jornalistas, terão sempre lugar. O que não cabe mais é a reserva de mercado que fazia do diploma a única alternativa de acesso à profissão.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista colaborador do JC

Comentários

Comentários