A propósito de uma carta publicada a respeito de gatos em cemitério, lembrei-me de uma crônica de Giulia Moon, escritora e publicitária, que tomo a liberdade de transcrever: "Geralmente vamos num cemitério por razões bem tristes.
E hoje fui ao Cemitério do Araçá por uma dessas razões: a morte de um amigo. Durante o trajeto, fui olhando os túmulos, sentindo o vento agitar as folhas das árvores. Alguns jazigos são monumentos enormes; outros, singelos e simples. Vi uns bem antigos, do século XIX, ou mais modernos, com a cara da arquitetura lisa e geométrica dos anos sessenta.
O Cemitério do Araçá é um daqueles cemitérios clássicos, e poderia muito bem servir como cenário de boas histórias de fantasmas. Mas nem tudo é morte, no Araçá. A quantidade de gatos que moram lá é uma coisa impressionante! Por todo lado, os bichanos surgem, gordos, bem tratados, felizes.
Brincam entre os túmulos, sobem nas árvores, entram nas frestas escuras dos jazigos sem medo. Para eles, não existe saudade dos mortos, frustração, solidão, culpas que nós, humanos, carregamos na nossa consciência. São os verdadeiros donos do cemitério. Para eles, o cemitério significa a vida, não a morte. E, quem sabe, seja este o melhor significado que um cemitério pode ter".
Fico surpresa de o prefeito Rodrigo Agostinho ignorar a Lei Estadual n. 12.916, que proíbe a eutanásia nos Centros de Zoonoses e que estabelece o animal comunitário, ou seja, aquele que pode viver livremente desde que castrado e sob cuidados de responsáveis. Em todos os lugares existem gatos em cemitérios, o que é muito bom para a saúde pública, pois evita a proliferação de ratos e insetos (convém lembrar que a Peste Bubônica transmitida por ratos matou milhões de pessoas na Europa no século XIV, pois os ignorantes, com medo da doença, matavam cães e gatos, os maiores predadores dos ratos).
Em Paris, no Cemitério Montemartre, existem até casinhas especiais para abrigarem os gatos; no Rio de Janeiro, o Araçá e o São João Batista também têm uma grande quantidade de felinos que ali vivem há muitos anos. Não seria mais importante preocupar-se com a limpeza do Cemitério da Saudade, o qual está, há muito tempo, com sujeira acumulada e sem cuidados, do que se importar com os inofensivos felinos?
Gabriela Batista