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Bobbio: o Brasil e o futuro da democracia

Roberto Bueno
| Tempo de leitura: 3 min

Estes são dias festivos por motivo da comemoração do centenário de Norberto Bobbio. Viveu um intenso e conturbado século em que toda meditação e a prudência não eram apenas armas necessárias como em certos casos insuficientes para garantir sua travessia, exceto se temperadas com generosa dose de argúcia. Nestes mares revoltos do século 20 muitos experimentaram as dores do naufrágio. Outros muitos sobreviventes guardaram em si feridas de difícil cicatrização. Intelectualmente, Bobbio sobreviveu condignamente, embora não sem pecadilhos, aos desafios de um tempo em que o perdão, a tolerância e o respeito à dignidade humana mal conheceram a luz do sol com a freqüência que a sanidade recomenda. Passados 100 anos de seu nascimento, a contribuição de Bobbio permanece atual, em especial seus estudos sobre a democracia. Eles descortinam promissora trilha para debates sobre o tema. Uma das idéias diz respeito à repercussão prática da democracia. Diz Bobbio que a democracia precisa mostrar força para derrotar o poder oligárquico (O futuro da democracia, 2000, p. 40), sob pena de tornar-se mero teatro em que os manipuláveis fantoches são os cidadãos. Aplicando isto ao cenário político nacional, observamos um José Sarney eleito para a presidência do Senado, Michel Temer para a presidência da Câmara e, coroando a tríade, a triste figura de Fernando Collor emergindo para a ribalta política ungido pela dupla Renan-Sarney galgando ao posto de fiscalizar os gastos do PAC. Nada mais vetusto, infelizmente, nada mais atual para dar conta de nossas chagas políticas.

Redivivas forças oligárquicas, prestes a exercer sua influência no jogo eleitoral de 2010. Como Bobbio suplantou um século de barbárie, a nós compete enfrentar com sua herança um tempo de homens primitivos em seus gestos privados e trato público. Quais as nossas reais perspectivas de suplantar o tempo dos oligarcas? Será através da pedagogia da dependência tão bem expressa e representada pelos programas de auxílio financeiro incondicionado? Improvável.

Quando Bobbio nos diz que as democracias têm de vencer o poder oligárquico expressa um real problema dos nossos tempos. É problema oculto por espessa cortina que encontra tradução nas formas de financiamento dos partidos políticos. Sob o ponto de vista qualitativo, embora consolidadas as instituições, podemos concluir que o estágio de nossa democracia carece de aperfeiçoamentos, de mais atuantes instituições, bem como de maior eficácia em seu sistema judiciário.

O fato de que essas aristocracias regionais prevaleçam na órbita federal bem demonstra que atravessamos uma crise quanto ao surgimento de lideranças políticas. Sendo assim, como legitimar a democracia perante os novos tempos e gerações? Como proceder a avanços qualitativos com oligarquias ao volante nada mais do que atendem ao retrovisor? A transformação é política, cidadã, mas de quais armas lançar mão para que a cidadania recupere o sentimento de que o tempo presente e futuro lhe pertence através do livre exercício das regras do jogo democrático? Como descortinar os ocultos poderes que manipulam o jogo político sob a retórica democrática? Para tentar ensaiar resposta em próximo artigo passarei à uma segunda idéia de Bobbio.

O autor, Roberto Bueno, é professor da Universidade Federal de Uberlândia - UFU

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