Cultura

Jorge Drexler faz releituras em 5 línguas

Por Marcus Preto | Com Redação
| Tempo de leitura: 3 min

“Eu não gosto de compor.” É quase inacreditável que Jorge Drexler, 44 anos, compositor consagrado com o Oscar em 2005 pela canção “Al Otro Lado Del Río”, de “Diários de Motocicleta”, diga uma frase dessas. O uruguaio está no Brasil para nova rodada de shows de seu álbum mais recente, “Cara B”, lançado no ano passado.

Apresentou-se no Rio de Janeiro, no último domingo, e hoje chega a São Paulo, para sessão única no Bourbon Street. Depois, segue para Florianópolis sexta e para Porto Alegre no domingo.

“Desfruto muito de tocar ao vivo, mas compor tem um lado de investigação pessoal que é mortificante. O começo de uma música é sempre difícil. Há um grande desgaste emocional e muita solidão envolvidos, já que o artista fica à mercê dos sentimentos”, diz. “Acho necessário (compor) como acho necessário trocar as cordas do violão. Mas não são trâmites agradáveis. E aprende-se muitíssimo como compositor fazendo versões de artistas que você admira.”

Talvez por isso o repertório de “Cara B” seja 50% de releituras. Drexler canta com destreza em espanhol, inglês, italiano, catalão e português, dando suas versões para músicas de Leonard Cohen, Luigi Tenco, Javier Ruibal, Alfredo Zitarrosa e Caetano Veloso. Do brasileiro, pinçou “Dom de Iludir” - que não estava no setlist do show do Rio.

Êxito

Esse recuo do Jorge Drexler compositor é intencional. Sua intenção é que suas facetas de intérprete, menos reconhecidas, roubem a cena. Ao menos por enquanto. O artista considera este um meio eficaz de não se deixar acomodar no que já conquistou até aqui.

“A etimologia da palavra êxito, que vem do latim, tem a ver com saída, com morte. E o êxito é mesmo um estado morto, de chegar a um lugar que é seu e ficar nele. Esse conceito é a coisa mais triste que existe”, diz. “Não acho contraditório terem colocado essa palavra para designar sucesso. A consagração é um estado de imobilidade.”

Desgastes emocionais à parte, Drexler está compondo seu novo disco. Diz já ter feito “seis ou sete” canções, todas sozinho, sem parceiros. E que esta temporada no Brasil tem sido muito estimulante nesse processo. Anteontem, depois de um banho de mar na praia do Leblon, voltou ao hotel e escreveu uma nova. “E, desta vez, foi sem sofrimentos”, garante.

No domingo, no Rio, o simpático “cantautor” declarou à platéia: “Tenho muitos discos gravados aqui. Então vocês podem imaginar como é para um uruguaio cantar no Canecão”, abrindo a noite com os versos de “Un País con El Nombre de un Rio”, que o apresentam: “Vengo de un prado vacío/ un país con el nombre de un río/ un éden olvidado/ un campo al costado del mar.”

A platéia cantou junto, assim como acompanhou “Polvo de Estrellas”, “La Vida Es Más Compleja de lo Que Parece”, “Guitarra y Vos”, “Deseo”, “Todo se Transforma”, “Milonga del Moro Judio”. Parte da noite foi dedicada aos pedidos do público, todos prontamente atendidos: “Sea”, “Soledad”, “Salvapantallas”. Drexler também fez suas versões: cantou “Dance me to the End of Love” (Leonard Cohen), faixa de “Cara B”, e até “Acontece” (Cartola).

Depois dos shows no Brasil, ele volta para casa, na Espanha, e continua compondo para o próximo CD, que deve lançar em fevereiro.

• Serviço

Jorge Drexler faz show no Bourbon Street (400 lugares), na rua dos Chanés, 127, Moema, São Paulo. Hoje, às 22h30. Ingressos: R$ 95,00 (esgotados). Informações: (11) 5095-6100.

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