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Falta de comprometimento é crônica

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 2 min

O acesso à informação e a insistente divulgação pela mídia das mazelas da assistência médica no Brasil estão entre os fatores que estimulam pacientes a processar com maior freqüência médicos e hospitais por imperícia, imprudência ou negligência. Na defensiva, muitos especialistas encontram estratégias para evitar comprometer-se com o paciente, especialmente no atendimento público.

Um profissional, por exemplo, capaz de atender uma pessoa com o braço fraturado, por não ser ortopedista, prefere encaminhá-lo a outro serviço, mesmo que o caso seja de simples resolução. O contexto foi citado pelo médico Luiz Antonio Bertozo Sabbag, diretor do Departamento de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal de Saúde. A situação atenta contra a relação médico-paciente que, por sua vez, provoca uma postura diferenciada por parte de quem depende de assistência médica.

Atualmente é comum o paciente mal explicar o problema que lhe acomete e logo exigir alguns exames. “Não tem aquela relação de confiança e fica cobrando exames. E o médico também, por falta de segurança, pede todos os exames que o paciente quer. A pessoa fica dançando. Faz um exame aqui, outro ali, não consegue passar pela mesma pessoa. Aí o outro que olha diz que não é bem assim, manda passar por um terceiro e vira uma via sacra”, admite.

O diretor do departamento enxerga a tecnologia como grande aliada, mas também atribui a ela o desgaste na relação entre médico e paciente.

“Os avanços tecnológicos levam ao surgimento de novas especialidades, provocam progressiva dependência do médico a técnicas e recursos sofisticados. Esses progressos vêm promovendo transformações na conduta dos profissionais e em especial na sua aprendizagem. Cada vez mais diminui a atenção ao apurado exame físico”, acrescenta estudo sobre o perfil dos médicos no Brasil, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz.

De acordo com ele, as transformações pelas quais passa a medicina também são provocadas pela falta de autonomia decorrente do assalariamento progressivo e da interferência das políticas de saúde na dinâmica do mercado.

Fragmentação do corpo

A fragmentação do corpo para a medicina não é algo recente. Remonta ao século 17, informa o antropólogo Cláudio Bertolli, estudioso do assunto. Mas o que era um discurso científico na época, transformou-se em cultura geral. Também mudou com o tempo a relação médico-paciente na classe alta.

Atualmente, tem cirurgião plástico que não consegue dialogar com o paciente tamanha a imposição feita por quem o procura. “Já vai com a quantidade de silicone a colocar nos seios, o modelo do nariz. Mesmo que o médico se oponha, procura outro. A subordinação ao médico mudou”, comenta.

A relação médico-paciente ainda é algo exclusivo às classes mais abastadas. É assim desde a época do médico de família. “Na primeira metade do século 20, uma consulta com ele custava três dias de trabalho de um profissional não especializado”, finaliza.

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