Há um bom tempo não escrevia para esse honrado jornal, mas o momento é de tanta irresignação que não posso ficar calado. O presidente do Senado, José Sarney, luta com todas suas forças e também com as forças do presidente Lula para não deixar o cargo, mesmo diante de inúmeras irregularidades apontadas contra ele.
Primeiro, cumpre salientar que embora as denúncias tenham se baseado em matérias jornalísticas, não vejo nenhum empecilho em que elas sejam utilizadas, não para embasar uma eventual condenação, mas sim para que ocorra uma apuração através do devido processo que deveria ser instaurado pelo Conselho de Ética do Senado para analisar se foram fundados os fatos veiculados nos jornais, sob pena de notória prevaricação. Assim, incumbia ao Conselho de Ética receber as denúncias e averiguar sua veracidade. Mas o que fez? Pasmem leitores!!! Optou por arquivá-las, utilizando-se de uma estranha “flexibilidade administrativa”, que me parece existir só para os caos que lhe convém.
Apoiado pela situação, o presidente do Senado ouve duras críticas de alguns colegas senadores com a maior tranqüilidade, pois sabe que ali a grande maioria tem seu telhado de vidro e, quando um de seus pares tece comentários mais veementes, como foi o caso de Arthur Virgílio, pasmem de novo leitores, é aberto processo contra ele (com prévia indicação de que será recebido e processado), enquanto são arquivados os processos daquele que deveria ser o foco da investigação. Não é um contra-senso?
Assim, fica cada vez mais fácil se manter no poder com o apoio da situação, inclusive de uma figura muito conhecida de todos em épocas passadas, autor da célebre frase: “Não me deixem só!”, que ressurge com um arrogante ar moralista. Causa espécie ver um ex-presidente da República, que renunciou para não ser cassado, apoiando outro ex-presidente desprovido de escrúpulos e aí me pergunto, onde estão os caras pintadas deste País?
A resposta é simples! Na época em que o ex-presidente Collor renunciou, o Partido dos Trabalhadores (PT) era oposição ferrenha ao governo e, apoiado pela CUT, UNE e outras organizações não governamentais, incitou a população para ir às ruas. E ela foi! Agora, como o PT é situação e os órgãos não governamentais recebem verbas do governo, me parece cômodo não insuflar o povo para um movimento legítimo que deveria ser chamado: “Fora Sarney”.
Mas ainda acho que existem muitas organizações independentes que podem iniciar essa movimentação, pois, caso contrário, o comodismo de nosso povo pode dar lugar a situações cada vez piores! E vocês poderiam perguntar se é possível ficar pior e eu lhes responderia que é óbvio.
Imaginem se o presidente Lula, que hoje, para defender seu amigo Sarney, interfere até na independência dos poderes, resolva seguir o caminho de seu amigo Hugo Chávez convocando um plebiscito no Brasil para aprovar, por exemplo, um terceiro ou quarto mandato. Vocês têm alguma dúvida que ele sairia vencedor? Ainda mais levando-se em conta o recente aumento aprovado para o Bolsa Família que é um dos sustentáculos de sua popularidade!
Tudo isso me faz lembrar da frase dita recentemente por uma grande amiga advogada: “Lulla, Sarnney, Collor, Rennan ‘et caterva bolivariana’: democracia sem oposição é ditadura”.
Esse é um dos principais motivos que me faz não gostar da política, embora dependamos dela para tudo! Jamais teria coragem de me candidatar a um cargo eletivo e ter que conviver com esse tipo de pessoa, muito embora no nosso dia-a-dia nos deparemos com alguns até piores que eles, ressalvadas, é claro, as honrosas exceções, como, por exemplo, o falecido senador Jef-ferson Peres. Neste momento vergonhoso pelo qual passamos novamente, só me resta perguntar, mais uma vez: onde estão os caras pintadas?
O autor, Sérgio Ricardo Rodrigues, é advogado - OAB-SP 136.354