Há 20 anos, um dos mais notáveis ícones da história da música brasileira deixava a existência. Raul Seixas não era só um cantor. Compositor, poeta, filósofo, revolucionário e professor, foi alguém que mostrou a complexidade do homem e a necessidade de transformações sociais. Indignado com as mazelas da humanidade, impulsionou a sociedade e, principalmente, a juventude a criar identidade e lutar por condições plenas de sobrevivência. Sabemos que a juventude é uma das principais responsáveis pelas mudanças sociais, e o impacto das frases de Raul para um jovem ecoa como uma bomba em sua mente, como por exemplo: “Antes de ler o livro que o guru lhe deu você tem que escrever o seu”, ou então, “(...) todo homem é uma estrela”. A primeira frase incentiva o homem a seguir o seu próprio caminho e ter opiniões próprias. A segunda revela que todos são capazes de brilhar e atingir objetivos e que, para isso, é necessário sempre arriscar, ou seja, tentar outra vez.
A história de Raul Seixas se confunde com a crítica e os protestos contra a ditadura militar. Em 1974, com a música “Sociedade Alternativa”, o cantor propunha uma sociedade livre de qualquer forma de opressão: “Faça o que tu queres, pois é tudo da lei”. Neste mesmo ano, Raul foi preso e torturado pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) sendo exilado nos Estados Unidos. O músico não desistiu e, em 1975, em plena ditadura Geisel, lançou o álbum Novo Aeon no qual exaltava a liberdade: “Querer o meu não é roubar o seu, pois o que eu quero é só função de eu, sociedade alternativa, sociedade novo aeon, é um sapato em cada pé, é direito de ser ateu ou de ter fé, ter prato entupido da comida que você mais gosta, ser carregado ou carregar a gente nas costas, direito de ter riso ou de prazer, e até direito de deixar Jesus sofrer”. Vale lembrar que o poeta não apenas criticou a ditadura, como denunciou a ânsia por poder dos partidos políticos, que pode ser adaptada ao que tem feito o PT atualmente, aliando-se com oligarcas do PMDB e de outros partidos para manterem-se absolutos. Segundo Seixas: “Todos os partidos são variantes do absolutismo. Não fundaremos mais partidos; O Estado é o seu estado de espírito”.
Raulzito falou sobre tudo, criticou a invasão estrangeira no Brasil e apresentou uma solução que seria alugá-lo, dançou Elvis e criticou a linha evolutiva da música brasileira, exaltou a necessidade de se libertar para o amor, não ter medo da chuva, morder a maçã e não querer uma mulher presa que nem santa no altar. Mostrou a constante metamorfose de um maluco beleza. Aclamado por um fã clube invejável e reconhecido por todas as camadas da sociedade, o músico não se limitou a cantar a apenas um público restrito, levando a música e a reflexão para as ruas.
O famoso “Toca Raul”, que inferniza todo e qualquer show, recebeu homenagem, recentemente, em música chamada “Toca Raul”, de Zeca Baleiro, que diz: “Quando paro, penso e reflito, como é poderoso esse Raulzito (...) o cara é mesmo um mito”. Em um País cada vez mais carente de música de qualidade, transformar um pensador que fez a sociedade e, principalmente, a juventude refletir acerca dos problemas sociais em um mito, parece ser nosso dever, e, portanto é de fundamental importância lembrar que há 20 anos o trem levou o corpo de Raul, porém sua estrela iluminará para sempre a humanidade.
O autor, Ciro Monteiro, é professor de história e estudante de biblioteconomia da Unesp-Mar