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Cuidado, um espião na sua geladeira!

Janira Fainer Bastos
| Tempo de leitura: 2 min

Esse texto foi inspirado em um artigo escrito por Thiago Azevedo Guilherme. Ele fala das novas tecnologias, de seu uso e abuso. Pensei em como a polícia e empresas penetram na vida privada das pessoas registrando gestos insignificantes, compras ou incursões na Net, sem falar no comércio mundial de dados pessoais. Em breve, essas tecnologias permitirão que eles conheçam a gente melhor do que nossos melhores amigos. Mas esse controle social em gestação garantirá a prosperidade e a segurança tão almejada? Essa sociedade da vigilância não remete o leitor ao admirável mundo novo ou a 1984, de Orwell? O conceito de privacidade extrapola o filosófico ou semântico sendo quase passional. O reconhecimento do direito à vida privada está enraizado na história. A lei judaica reconhece a liberdade de não ser vigiado. O conceito de vida privada não é ocidental, nem moderno, pois certas proteções existiam na Grécia ou China antigas e antes de Cristo, o juramento de Hipócrates garantia as informações confidenciais entre médico e paciente.

Vida privada e liberdade são semelhantes possuindo diversos sentidos. Na Europa e nos Estados Unidos é um componente inseparável dos direitos do indivíduo, principalmente o de se proteger das ingerências do governo federal. Em outros países resume-se à questão dos dados pessoais. Para alguns autores demarca um espaço onde o cidadão deve poder viver ao abrigo dos olhares alheios desfrutando plenamente suas relações com os outros. Abusos são cometidos todos os dias, por exemplo: a DoubleClick, agência de publicidade do mundo cibernético, comprou um banco de dados nominais com o recenseamento de cerca de dois milhões de encomendas de consumidores norte-americanos cruzando com seu próprio cadastro constituindo com isso um outro ainda mais gigantesco, preciso e sobretudo nominal. Amazon, a maior livraria do mundo, vendeu informações acumuladas de sua clientela em um momento de crise financeira.

O Salão das Relações com o Cliente, uma feira de compra e venda de Paris, promoveu há pouco tempo um encontro comercial. A empresa I-Base oferecia em seu estande um cadastro de consumidores na faixa de 15 a 35 anos. De onde vêm esses dados? Na era do comércio eletrônico e dos serviços personalizados, cresce o interesse por informações sobre os cidadãos e cada vez mais eles precisarão de proteção jurídica para defender a liberdade individual e identidade. O direito a vida privada é o companheiro de estrada da liberdade de expressão. Como a sociedade de informação avança e o virtual apodera-se da vida de todos, então esse controle se fortalece ameaçando tanto aquele direito, quanto essa liberdade, fundamentos essenciais de toda sociedade livre. Como se trata de algo irreversível está na hora de contra-atacar, afinal o espião está na sua geladeira, ou seria no seu computador?

A autora, Janira Fainer Bastos, é articulista do JC

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