A falta de moradia é que impede que a cidade de Borá (205 quilômetros de Bauru) receba novos moradores. Essa é a opinião do presidente da Câmara Municipal, vereador Wilson Ferreira Costa (PT). Para ele, o crescimento tímido, de 834 habitantes em 2008 para 837 em 2009, apontado pela mais recente contagem do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não significa que as pessoas não queiram morar em Borá. “Muito pelo contrário. Elas querem, mas não têm onde.”
Para confirmar a tese, Costa diz que há pessoas dispostas a pagar o dobro do preço real do aluguel, mas nem assim encontra imóvel. “As pessoas gostam demais de morar aqui, mas não conseguem, falta moradia. Uma casa de dois quartos, que tem valor real do aluguel de R$ 250,00/mês estão oferecendo R$ 500, mas não tem imóvel.”
O presidente da Câmara diz que tem sido procurado até para arrumar imóvel na zona rural para abrigar trabalhadores. “Um pessoal que tem lavoura de mandioca precisava de abrigo para os trabalhadores que vão arrancar a raiz e estavam dispostos a alugar na zona rural, mesmo assim não encontraram.”
Para ele, terminar as 101 casas da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) é o primeiro passo para atrair novos moradores. “Há quatro anos que as casas estão paradas por conta de irregularidades da CDHU de Presidente Prudente. O prefeito atual conseguiu uma verba do governo do Estado para terminar a obra. O reinício da obra está previsto para setembro.”
Na opinião dele, depois de regularizar essa situação, a prefeitura poderá requisitar novas construções. “O recurso que era para terminar foi extraviado pelo pessoal da CDHU responsável pela construção inicial. As irregularidades causaram a desistência de muitos compradores.”
Os interessados já tinham sido cadastrados, a construção era pelo sistema de mutirão. “Já tinha sido feito sorteio. Mas quando saiu a história das irregularidades, muitos desistiram. Pararam de pagar. Vamos ter que fazer novo recadastramento para ver aqueles que vão continuar no programa.”
Costa prevê que a cidade irá crescer, assim que resolver essa pendência. “Faz parte dos nossos projetos construir mais casas. A usina, que fica a 13 quilômetros daqui, tem trazido muita gente de fora que quer morar aqui.”
Enquanto as novas casas não chegam, Borá investe na infra-estrutura para receber, no futuro, os novos habitantes. “Estamos ampliando a unidade básica de saúde e buscando recursos para ampliar a creche. O hospital mais próximo é em Paraguaçu Paulista. É onde nascem os filhos do pessoal que mora aqui. Esses novos moradores vão aparecer só no próximo censo.”
A cidade possui uma agência bancária, uma unidade de saúde, uma escola, dois restaurantes, uma lanchonete, uma farmácia, duas padarias e alguns bares. Pelos dados do IBGE de 2007, são 99 automóveis e duas motos, além de quatro ônibus disponíveis.
Comércio ainda é tímido
O comércio da cidade de Borá é tímido. Tem, na maioria dos casos, um estabelecimento de cada segmento, comenta a farmacêutica Patrícia Vetorato Gasbarro. Proprietária da única farmácia, ela diz que as compras maiores, a população de Borá faz em Paraguaçu Paulista, distante 13 quilômetros. “Tem transporte gratuito para Paraguaçu Paulista.”
Segundo ela, o comércio local evoluiu, mas ainda tem que ser ampliado. A relação cliente/comerciante mudou a partir da informatização. “Há quatro anos quando comprei a farmácia, os clientes compravam e era marcado em uma caderneta. “Era o Zé Feio, o Badão e tantos outros. Com a informatização, os clientes ganharam identidade e passaram a assinar a nota. Muitos desistiram, não gostaram. Hoje já estão adaptados.”
A população, segundo a farmacêutica, procura mais os produtos de perfumaria. Os remédios são vendidos em menor escala. “Temos um convênio com a prefeitura. Quando o usuário não tem condições financeiras para pagar, passa pela assistência social do município e dependendo da situação, a prefeitura banca o medicamento.”
Como única fornecedora de medicamentos, a farmácia atende 24 horas, embora esteja aberta apenas no horário comercial. “Os moradores ficam com o nosso cartão e com o telefone celular. Se precisam, ligam e eu venho de Paraguaçu Paulista, onde moro.”
O açougue da cidade fecha para o almoço. A única sorveteria fechou. Os dois restaurantes vivem em função dos trabalhadores e fornecedores da usina. Em Borá tem duas padarias, uma artesanal, que é um projeto do governo do Estado, e outra que é mais comercial.
Na cidade não há fornecedores de verduras, legumes e frutas, mas o serviço é feito de porta em porta por um comerciante de Paraguaçu Paulista que chega com o caminhão carregado dos produtos, três vezes por semana.
O comerciante Renato Luiz Salomão é proprietário de um dos restaurantes e explica que em função dos trabalhadores da usina teve que mudar o cardápio. “Eu forneço alimentação para uma empresa terceirizada da usina. São 58 marmitex/dia. Eles estão com uma turma de goianos que não comem carne com molho. Tive que aprender fazer cuscuz para servir no jantar. Eles comem cuscuz com leite.”
Além dessa clientela fixa, Salomão conta com os caminhoneiros que chegam para descarregar na usina. “Pela manhã dou uma chegada na usina e vejo quantos caminhoneiros tem, para ter uma idéia da quantidade de comida que tenho que fazer.”
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Fama de local tranqüilo tem atraído marginais
Borá tem só 42 anos e pela contagem do IBGE, 837 habitantes. Sempre foi considerada uma cidade muito tranqüila para se viver. Até cinco anos atrás, os moradores não trancavam as portas durante o dia e nas noites quentes deixavam as janelas abertas. Mas a usina, que se instalou a 13 quilômetros da cidade, atraiu trabalhadores de várias partes do Brasil e, ao mesmo tempo que trouxe o sonhado emprego para a população, tirou o sossego.
Na opinião do presidente da Câmara de Borá, Wilson Ferreira Costa, a exposição na mídia cooperou com a chegada de marginais.
“Era muito sossegado, mas todas as vezes que Borá aparece na televisão ou em jornais apontam o município como um dos menos violentos e mostra como a comunidade vive, os ladrões acabam vindo para cá em função da facilidade.”
O mais ousado deles e que assustou a população ocorreu em janeiro deste ano, na única agência bancária da cidade, instalada na praça Santo Antônio, área central. “Os ladrões cortaram o telefone da Polícia Militar e o alarme da agência. Levaram pouco dinheiro, somente o que estava no caixa.”
A comerciante Patrícia Vetorato Gasbarro confirma que a fase de muito sossego passou. “Há quatro anos quando comprei a farmácia não precisava de alarme. Hoje, tenho alarme que dispara na polícia. Os moradores estão com medo.”
Nenhum flagrante em oito meses
O delegado responsável pela delegacia de Borá, Marcelo Petuba Lambert, é o titular de Guatá, cidade vizinha. Para ilustrar a ausência de violência em Borá, ele fala que este ano não foi registrada nenhuma prisão em flagrante. “A média é de dois boletins de ocorrência mensais. São pequenos furtos, agressão familiar e desentendimentos.”
Para o comandante do 1º grupamento da Polícia Militar, cabo Oliveira, em agosto até o dia 20 foi registrado um BO. “De junho a agosto não foi registrado acidente de trânsito. A média é de três a quatro ocorrências/mês. A maioria são desentendimento e desinteligência.”
O único homicídio registrado na história de Borá, segundo o cabo da PM, foi em 2002. “Um caso passional que inclusive já foi julgado.”
A cadeia para presos provisórios com duas celas, segundo o delegado, que durante anos ficou sem ser ocupada já foi usada.
Em janeiro deste ano, um furto ocorrido na agência do banco Santander de Borá traumatizou a população, que não esquece o episódio. Foi o primeiro furto em banco da história do município. Homens armados invadiram a agência na praça central e arrombaram o cofre. Fugiram levando alguns talões de cheque, o colete e o revólver calibre 38 do vigia, que não estava no local.
Sem lances cinematográficos, os ladrões ousaram cortar os fios de telefone do grupamento da PM e murcharam o pneu da única viatura que servia o único PM de plantão no dia. Cuidadosos, eles fugiram e a polícia nem percebeu, mesmo estando instalada na mesma praça da agência.
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Viver em Borá é garantia de qualidade de vida
Viver de maneira simples, sem se preocupar com trânsito, violência urbana e ter amizade com todo mundo é a fórmula ideal para garantir qualidade de vida, na opinião do comerciante e morador de Borá Renato Luiz Salomão. “Fui bancário 21 anos e quando saí do banco já estava morando aqui. Optei por ficar, porque tenho mais qualidade de vida. Minha família vive melhor.”
Para driblar a falta de lazer e do comércio, Salomão recorre a Paraguaçu Paulista. “Nos finais de semana, pego a família e vou para lá. Aqui dificilmente tem opção de lazer. No último final de semana teve show na praça, mas choveu e nem pudemos curtir.”
Outro item computado pelo comerciante na hora de resolver ficar em Borá foi a questão da saúde. “Em cidades maiores, o serviço público de saúde é deficiente. Aqui tem médico todos os dias, cada dia de uma especialidade.”
Para ele, o leite puro da fazenda e o queijo fresco comprado na porta são sinônimos da simplicidade que vivem os moradores. “No final da tarde, quando os trabalhadores retornam da usina, se reúnem nos bancos em frente as casas para conversar. É muito bom esse contato.”
Doraci Favato conhece Borá antes mesmo da localidade ser considerada município. “As ruas eram de terra. Não tinha água encanada. A água era tirada do poço. Era um lugarejo sossegado.”
Ela, que, durante muitos anos foi comerciante, já “pendurou as chuteiras” e curte a cidade com olhar de quem a viu nascer. “Meus filhos é que estão nos dois mercados que temos. A cidade melhorou muito, o comércio está crescendo em função da demanda que aumentou por causa da usina.”
]Para ela, a cidade ainda carece de lazer. “Antigamente tinha a festa do padroeiro, que há três anos não se realiza. Só tem a festa do município em 31 de março.”
Como uma das mais antigas moradoras, Doraci acha que Borá é o lugar ideal para quem deseja qualidade de vida. “Nós conhecemos uns aos outros e isso dá uma certa segurança. É como se tivéssemos uma grande família.”
Na cidade há hortas e todo espaço não ocupado por edificações recebe tratamento diferenciado. Na parte baixa por exemplo, há cultivo de mandioca, mamão, boldo e plantas decorativas. Em todas as quadras das poucas ruas há “latão” de lixo para serem recolhidos posteriormente.