O movimento do Dia Mundial Sem Carro não busca somente reduzir a poluição do ar e melhorar o fluxo no trânsito. A idéia da campanha é a luta por um transporte público de qualidade, respeito ao pedestre e mais ciclovias. Mas o fato é que pensar em ficar sem o carro, um dia sequer, pode angustiar muita gente. De acordo com o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, as pessoas não conseguem pensar em seu cotidiano sem automóveis. “No final, isso está ligado ao processo de consumo histórico de tecnologia. As pessoas dizem que não podem viver sem seus carros, computadores, celulares”, frisa.
Além disso, ele avalia que muitos gostam de mostrar seu veículo. “As pessoas acabam tendo um carro também pelo status. Já vi gente com carro que valia mais que o apartamento que morava. O veículo usado como uma espécie de ostentação”, diz.
Bertolli também destaca uma teoria francesa que discute o uso da máquina e a valorização do corpo. “Muitas pessoas passam horas em academia trabalhando seus corpos, mas não querem mais usá-los, apenas mostrá-los. Por isso o trabalho braçal e o esforço físico são desvalorizados”, pontua.
Dessa forma, seja por obrigar as pessoas a se expor - caminhando, pedalando ou usando o transporte público - e principalmente por muitos só aderirem uma única vez ao ano, sem pensar em uma rotina realmente sem automóveis, Bertolli avalia que o Dia Mundial Sem Carros ainda é uma data simbólica vazia.