Washington - Num dos momentos mais tensos na relação entre Brasil e EUA desde que Barack Obama assumiu o poder, em janeiro, os representantes dos dois países na OEA (Organização dos Estados Americanos) elevaram o tom durante reunião extraordinária convocada para discutir a crise em Honduras, ao longo do dia de ontem, em Washington.
Até as 21h de ontem, a entidade ainda negociava os termos de uma declaração que repudiaria a expulsão no domingo de diplomatas enviados pela entidade ao país para dialogar e pediria respeito à integridade física da Embaixada do Brasil, onde Manuel Zelaya se encontra, e de seus ocupantes.
Americano critica
Falando primeiro, o representante interino americano iniciou sua intervenção chamando de “deplorável e tola” a decisão do regime golpista de expulsar os diplomatas. “Essas ações constituem um insulto à comunidade internacional e a essa organização’’, disse o embaixador W. Lewis Amselem. Então, ele se dirigiu a Zelaya e aos que o ajudaram a voltar.
“O retorno do presidente Zelaya a Honduras antes de um acordo foi irresponsável e tolo”, disse. “Aqueles que facilitaram sua volta nas atuais condições têm uma responsabilidade especial de prevenir a violência e de zelar pelo bem estar do povo hondurenho”, continuou, sem citar nomes - há suspeita nos meios diplomáticos de que o Brasil sabia de antemão dos planos do hondurenho, o que o governo brasileiro nega.
Mais adiante, repetiu a crítica. “Em várias ocasiões, pedimos ao presidente Zelaya que não voltasse a Honduras antes de que um acordo político fosse atingido”, disse Amselem. “Estávamos preocupados precisamente com os distúrbios que estão tendo lugar agora. Tendo escolhido, com ajuda externa, retornar em seus próprios termos, ele e aqueles que facilitaram seu retorno são particularmente responsáveis pelas ações de seus seguidores.’’
Brasil quer mais apoio
Na sua vez de falar, Ruy Casaes, o representante brasileiro, disse: “As autoridades e os representantes do regime de facto atribuíram responsabilidade ao Brasil pelo regresso do presidente Zelaya a Honduras. Isso é uma mentira deslavada. O presidente Zelaya apresentou-se à Embaixada do Brasil pedindo para ali ser acolhido. A reação do governo brasileiro à solicitação de um presidente que ele considera o presidente legítimo de um país não poderia ter sido outra”.
Na seqüência, Casaes usou palavras duras contra a entidade e os que apresentavam entrave a uma declaração em termos mais duros sobre o ocorrido - nesse caso, referia-se sem citar ao representante americano, que liderava a movimentação por um texto mais ameno, que não mencionasse, por exemplo, que a entidade condenaria o resultado das eleições presidenciais hondurenhas caso elas ocorressem sem a volta de Zelaya ao poder.
Casaes disse que a entidade estava caminhando para o que chamou de um absoluto estado de irrelevância. “Creio que a OEA fez e continua a fazer aquilo que está a seu alcance. A pergunta que faço é se aquilo que está a seu alcance é suficiente. Creio que é chegado o momento de darmos um passo adiante. Acho que é chegado o momento de dar um basta”.
Antes, o porta-voz do Departamento de Estado, PJ Crowley, fora mais ameno. Disse que o regime golpista “estava cavando sua própria cova”. Indagado se concordava com a crítica do colega da OEA, para quem a volta foi irresponsável, disse: “Como ele está lá, há uma oportunidade para o diálogo, esperamos que ambos os lados a aproveitem”.
Em Genebra, os EUA recuaram do apoio tácito que haviam dado à resolução proposta pelo Brasil que condena Honduras no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Ontem, representantes norte-americanos disseram que esperarão para “ver a versão final em sessão” antes de se comprometerem com sua aprovação.