Relatório de inspeção do equipamento usado para radioterapia do Hospital Manoel de Abreu, em Bauru, aponta que a taxa de dose da cápsula de cobalto estava abaixo da recomendada no ano de 2008. O documento, emitido pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), órgão ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, foi enviado para a direção da instituição hospitalar bauruense e agora está sob análise dos deputados estaduais que compõem a CPI do Erro Médico.
Entretanto, intervenções sobre o funcionamento do equipamento só podem ser feitas pela Vigilância Sanitária, que determinou a desativação temporária do aparelho para garantir a segurança dos pacientes e funcionários apenas no dia 10 de julho deste ano, quando ele apresentou problema técnico e foi detectado que a ampola de cobalto, responsável por emitir a radiação necessária para o combate ao câncer, estava com atividade muito baixa e precisaria ser trocada.
Durante todo esse período, a radioterapia funcionou normalmente no hospital, apesar do conhecimento dos organismos de Saúde da diminuição da potencialidade da cápsula de cobalto, empregada no tratamento. Com isso, o tempo de exposição dos pacientes à radiação aumentou, podendo ter causado queimaduras na pele ou prejudicando o tratamento.
É sobre essas questões que se debruçam os parlamentares que integram a Comissão de Saúde da Assembléia Legislativa do Estado e a CPI do Erro Médico. Os deputados desconfiam que problema semelhante ao que ocorreu na cidade de Santos pode ter ocorrido também em Bauru. Durante 34 anos, o equipamento de radioterapia foi usado no tratamento de pacientes com câncer na baixada santista. Ele chegou a atender 40 pessoas por dia na Beneficência Portuguesa de Santos - um dos maiores hospitais do litoral paulista. Documentos mostraram que, em 2006, a Cnem alertou o hospital que a pastilha de cobalto estava com atividade muito baixa e precisaria ser trocada.
O problema foi suscitado pelo deputado estadual Fausto Figueira (PT), presidente da Comissão de Saúde da Assembléia Legislativa. “Nós estamos vivendo um problema, que é o da radioterapia. Durante algum tempo, tudo indica mais de anos, os pacientes faziam radioterapia sem que a bomba de cobalto tivesse efeito terapêutico. Ela queimava a pele, mas não tratava os tumores”, diz. Quando o problema foi levado à comissão, o deputado Pedro Tobias (PSDB), que integra o grupo, disse que o problema teria acontecido em Bauru.
Diante disso, os responsáveis pelo Hospital Estadual (HE), que gerencia o Hospital Manoel de Abreu, Vigilância Sanitária e Divisão Regional de Saúde de Bauru (DRS-6) deverão prestar depoimentos na CPI do Erro Médico no próximo dia 27 para esclarecer informações a respeito do caso.
Outro lado
A Secretaria de Estado da Saúde informa, por meio de sua assessoria de imprensa, que o Hospital Manoel de Abreu possui documento da Cnen que autoriza o funcionamento do aparelho de radioterapia até setembro de 2010. A Vigilância Sanitária tem acompanhado o caso desde 2008 e que não há registro de nenhum paciente prejudicado no tratamento que foi realizado na unidade.
Em nota, a pasta esclarece que “para preservar a integridade de seus pacientes, a Vigilância decidiu suspender a atividade local para que seja providenciada a troca do material e, assim, garantir o tratamento adequado das pessoas que necessitam de radioterapia”.