‘Respiro a música da nossa banda’
É no ritmo da música instrumental que o maestro Adalberto Alves da Costa vive há cerca de 32 anos. Doze deles como músico e quase 20 anos no comando da Banda Marcial Liceu Noroeste, vice-campeã brasileira e atual campeã estadual, para citar apenas alguns dos inúmeros títulos conquistados com muito esforço, disciplina, dificuldades e determinação.
Apesar de sempre ser aprovado na escola, Adalberto nunca saiu do Liceu Noroeste, está lá desde a primeira série do primário. O gosto pela música o levou a ser um dos componentes da banda marcial mais famosa da região e uma das mais tituladas do país. Doze anos depois, veio a oportunidade de estar à frente do grupo, o sonho de ser músico cresceu e ele se tornou maestro.
Mesmo com muitas dificuldades, falta de patrocínio e apoio, Adalberto e a Banda do Liceu vêm ganhando títulos e levando o nome de Bauru para todo o país e até mesmo fora dele. Abaixo estão os principais trechos da entrevista que esse dedicado bauruense deu ao Jornal da Cidade onde ele também fala sobre família, troféus, viagens e história de vida.
Jornal da Cidade - Há quanto tempo você é maestro da Banda Marcial Liceu Noroeste?
Adalberto Alves da Costa - Em abril de 2010 completará 20 anos.
JC - Quantos troféus foram conquistados nessas duas décadas?
Adalberto - É difícil classificar porque são muitos. Mas posso falar sobre os mais notórios como oito campeonatos estaduais, dezenas de campeonatos promovidos por prefeituras municipais e o mais recente da Ocifaban, que é uma organização não governamental cultural de incentivo às fanfarras e bandas do Estado de São Paulo. Na verdade, esse título é o único meio que conduz à participação do campeonato nacional promovido pela Confederação Nacional de Fanfarras e Bandas. Com o resultado positivo, a banda obteve classificação para participar da final nacional em 28 e 29 de novembro na cidade de Sorocaba. Também fomos bicampeões da Rádio e TV Record, campeões nacionais em Ribeirão Preto, Varginha, entre outros tantos.
JC - Como você chegou até a banda?
Adalberto - Cresci dentro da escola. Estou aqui desde a primeira série primária, sempre fui encantado pela banda e acalantei o desejo de participar dela. Comecei a tocar em 1976 e toquei por uns 12 anos. Primeiro toquei trombone e depois bombardino por dez anos seguidos.
JC - Imagino que você tenha boas lembranças dessa época...
Adalberto - Durante o período em que fui músico na banda tive o privilégio de conviver com muita gente de destaque de várias áreas, inclusive do cenário musical. Toquei em bailes inesquecíveis de Carnaval e ganhamos vários prêmios como a melhor Banda de Carnaval de Bauru. Fiz grandes amigos naquela época que trilharam caminhos diferentes, mas que mantenho contato até hoje. Mais recentemente, temos um rapaz que foi meu aluno e que já tocou até na Orquestra Sinfônica do Paraguai, além de participar do Quinteto de Metais da Universidade de São Paulo, em turnê pela Europa.
JC - Como chegou a ser maestro?
Adalberto - Em um determinado momento, em decorrência de compromissos profissionais do maestro anterior a mim, eu fui convidado. Nunca havia pensado sobre isso mas achei a proposta interessante. O convite chegou em um momento que coincidiu com o final de um estágio que eu fazia na Caixa Econômica Federal, ou seja, chegou na hora certa. A banda sempre foi uma paixão de criança e eu abracei a oportunidade. Felizmente tenho conseguido muitos resultados expressivos, inclusive projeção internacional. Temos algumas conquistas diferenciadas como a vez em que tocamos em Brasília e fomos agraciados com a chave simbólica da cidade. Também temos a chave de Melipilla, no Chile, uma grande honra para nós já que o município completava 259 anos e nunca havia dado a sua chave para alguém antes. E temos também a medalha cívica da juventude outorgada pela Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. São honrarias ímpares fora do contexto normal de premiações.
JC - Em quais países a banda já se apresentou?
Adalberto - Já tocamos em diversas cidades do Chile e Argentina. Além disso, já fomos convidados para tocar na Venezuela e Estados Unidos da América. Recentemente, recebemos convites para enviar material com a possibilidade de tocarmos na China em julho de 2010. Acredito que estamos cumprindo um belo papel representando o nome de Bauru.
JC - Devem ter boas historias dessas viagens...
Adalberto - Muitas. Quando estivemos na Argentina, nós ficamos na Província de Mendonça. Lá, fomos tocar em uma escola fundada por Eva Perón em um parque chamado San Martin que me chamou a atenção por sua beleza. Descobri que aquele parque era uma região desértica e eles canalizaram a água que derretia da neve da cordilheira para irrigar a área. Achei incrível a valorização que o meio ambiente tem naquela região. Enfim, tocamos na escola e nos levaram para a frente de um palácio onde começamos a tocar para ninguém. Foi uma coisa muito estranha, até que o assessor do governador me disse que deveríamos tocar lá e se o governador gostasse, ele sairia na janela e nos convidaria para entrar no palácio do governo. Foi o que aconteceu. O mais engraçado foi que tudo mudou depois disso: tínhamos escolta da polícia e muitas regalias.
JC - E como foi a viagem ao Chile?
Adalberto - Foi ainda mais emocionante. O primeiro ano que tocamos lá havia ocorrido um arrastão na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e não fomos bem recebidos no país por causa desse episódio. Chegamos a perceber que as pessoas estavam arredias conosco. Nossos alunos ficaram hospedados em casas de família e, devido ao comportamento deles e das apresentações, o quadro mudou significativamente. Nossos alunos foram chamados de filhos e na última apresentação a platéia, cerca de cinco mil pessoas, tirou um lencinho branco do bolso e acenou para nós como despedida, além de descer para abraçar os elementos da banda.
JC - Por que não chegaram a tocar nos Estados Unidos?
Adalberto - Fomos convidados por três ou quatro anos seguidos, porém, as passagens seriam por nossa conta e, por isso, não foi possível. Sempre procuramos apoio e patrocínio mas as negativas predominam. Para ir ao Chile, por exemplo, realizamos ações entre amigos para arrecadar fundos. Chegamos a promover campanhas de coleta e venda de material reciclável, festa da pizza, etc. Mas, mesmo assim, cada um teve que colocar uma quantia do bolso para levar a banda para fora do país. Se tivéssemos apoio e patrocínio, a nossa estrutura melhoraria porque os alunos poderiam aprender mais e ter mais instrumentos. Se a prefeitura, por exemplo, colaborasse conosco com o transporte, isso facilitaria porque voltaríamos o nosso trabalho somente para o lado musical e não para a arrecadação de recursos. A falta de instrumentos adequados, porque eles são caríssimos e não temos o que gostaríamos de ter, também é uma dificuldade do grupo.
JC - Hoje, a banda é composta por quantos membros?
Adalberto - Cerca de 50 músicos entre 9 e 18 anos. Mas contamos com o “apoio” também, pessoas que carregam os instrumentos pesadíssimos. Alguns chegam a pesar 80 quilos e esse pessoal é fundamental para a apresentação da banda. Ela funciona com uma ação coletiva, já que ninguém faz nada sozinho. Somos a somatória de muita dedicação, valores individuais e muito trabalho. A base dela é formada por alunos da escola, mas também temos alunos da periferia que andam a pé até a escola por não terem condições de pagar transporte. Quer dizer, você vê uma força de vontade enorme dos alunos nesse trabalho que tem um grande cunho social, promove a inclusão e oportuniza a pessoa a desenvolver um trabalho cultural. Não trabalhamos apenas a música, mas também a disciplina, discutimos assuntos políticos, econômicos, ambientais e temas dominantes do momento para que os alunos possam ter capacidade de discernimento, trabalho em equipe e se desenvolvam nas demais áreas da vida.
JC - Qual é a sua grande vitória como maestro?
Adalberto - É quanto meus alunos conseguem expressar, através da música, tudo aquilo que trabalhamos a muito tempo. Por exemplo, para ganhar o campeonato estadual no dia 11 de outubro, nós nos preparamos desde o início do ano. Às vezes, o primeiro lugar não vem, mas a atuação da banda convence porque nem sempre o primeiro lugar traduz aquilo que foi o trabalho. Costumo dizer para meus alunos que a Banda do Liceu não vai para competir, isso é para os outros, nós vamos para vencer. Agora, vencer ou não, depende de uma série de coisas e algumas bandas tem grandes apoios, o que ajuda muito.
JC - Você consegue separar a sua vida da Banda do Liceu?
Adalberto - Eu acho que tudo faz parte do mesmo contexto. Sou aquele aluno que sempre foi aprovado mas nunca saiu da escola.
JC - Qual foi seu sonho de infância?
Adalberto - Desejava ser médico e a música era um hobby que eu acalentava. Estudei patologia clínica no ensino médio e fui visitar a Universidade de São Paulo. Quando abriram os tanques com cadáveres no formol, percebi que aquilo não era para mim. Fiz contabilidade, também no ensino médio, e faculdade de ciências contábeis. Porém, terminei meu estágio no banco e obedeci o chamado da música.
JC - Além da Banda, você tem outras atividades?
Adalberto - Trabalho na escola Criarte e dou aulas em um projeto social chamado “Sopro de Esperança” para crianças carentes do Fortunato Rocha Lima. Para mim, a música é uma paixão que promove a inclusão social.
JC - Sobra tempo para a família?
Adalberto - Sim. Graças a Deus tenho uma família fantástica, filhos que não me dão trabalho e uma esposa maravilhosa que cuida muito bem da nossa família.
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Perfil
Nome: Adalberto Alves da Costa
Idade: 48 anos
Local de Nascimento: Bauru
Signo: Peixes
Esposa: Edilaine
Filhos: Guilherme e Giovanne
Hobby: Ver filmes e futebol na TV
Livro de cabeceira: Livros de música, revistas e jornais
Filme preferido: Filmes de ação
Estilo musical predileto: Sou eclético e gosto de músicas alegres
Time: Palmeiras
Para quem dá nota 10: Para a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp)
Para quem dá nota 0: À corrupção que trava o desenvolvimento do país
E-mail: adalberto@liceunoroeste.edu.br