A Comissão de Inquérito interna da Associação Hospitalar de Bauru (AHB) reuniu-se ontem para discutir o relatório parcial que confirma a realização de pagamentos irregulares no setor de bucomaxilo do Hospital de Base e que culminou com o recebimento de supersalário pelo dentista Marcelo Saab, filho do ex-presidente da associação, Joseph Georges Saab.
Conforme revelou o JC no último sábado, o dentista recebia sozinho até cinco vezes a soma da produção de cinco outros colegas no setor. O supersalário de R$ 20 mil mensais chegou a ser de R$ 35 mil recentemente. A remuneração exigia a apresentação de 6 mil procedimentos ao mês por Marcelo Saab, cota que era tecnicamente impossível de ser alcançada até pelo grupo de cinco colegas do setor.
As informações estão ancoradas também em depoimentos dos cinco dentistas do setor de bucomaxilo do Hospital de Base à Comissão de Inquérito interna. Os dados vão apontar que a média de intervenções eletivas no setor era mantida somente pelos demais profissionais e até os plantões eram divididos de forma equilibrada.
Mas, conforme os documentos internos, os pagamentos recebidos por Marcelo Saab excediam em muito a média e a apresentação de guias de atendimento também era muito discrepante. A Procuradoria da República reforça, neste item, que há elementos suficientes para provar que o excedente de faturamento era manipulado através de fraudes.
A Comissão de Inquérito no âmbito da AHB tinha dois itens a apurar, os serviços e pagamentos no setor de bucomaxilo e o destino dos R$ 16 milhões emprestados junto à CEF para quitar dívidas da entidade. A comissão vai oferecer o relatório interno ao interventor da AHB, Fábio Tadeu Teixeira. O documento, conforme apurou o JC, também deve ir para os ministérios públicos Federal e Estadual. Mas como o rastreamento dos milhões emprestados já está em andamento, a tendência é a comissão tornar o relatório parcial definitivo, aguardando informações sobre o que já virá pela via judicial.
Todas as testemunhas já tinham sido ouvidas pela Comissão de Inquérito interna antes das denúncias virem a público, na semana passada, o que facilitou a conclusão da apuração.
Sobre as suspeitas de fraudes em serviços de bucomaxilo cobrados via SUS, a informação é de que isso dependerá do cruzamento de informações entre as guias pagas pelo SUS ao Hospital de Base e os relatórios dos pacientes atendidos. Há suspeita de duplicidade ou repetição de pacientes em intervalos de tempo.
O supersalário
Apesar da direção da Associação Hospitalar de Bauru (AHB), comandada por Joseph Saab, dificultar o acesso pelos conselheiros aos pagamentos por serviços realizados para o filho Marcelo Saab, um levantamento em planilha realizado em relação a pagamentos por intervenções de bucomaxilo mostra que ele recebeu até R$ 35 mil mensais para trabalhar, enquanto os outros cinco dentistas juntos do mesmo setor não conseguiram faturar nem R$ 10 mil.
O supersalário perdurou por bom tempo durante a gestão de Reinaldo Rocha como superintendente, atual assessor do deputado Pedro Tobias (PSDB) e que deixou a gestão da AHB no final do ano passado, quando os fatos apurados nas atuais denúncias já tinham acontecido. Não há denúncia, até esta fase, contra a atuação de Rocha na entidade.
No último sábado, o JC revelou a planilha. Segundo o documento, em setembro de 2007 Marcelo Saab recebeu R$ 24.694,73, contra pouco mais de R$ 9 mil dos colegas de área. Em fevereiro de 2008, o filho do presidente passou a ter ganhos de R$ 20 mil da AHB, contra um total de R$ 32 mil de todo o setor. A média permaneceu até agosto do ano passado. Mas em setembro de 2008, o dentista Saab levou sozinho por serviços prestados R$ 35.510,25. Em outubro vieram outros R$ 35.700,00, em novembro do ano passado o cheque foi de R$ 35.800,00 e em dezembro o valor voltou ao patamar de R$ 25 mil.