Regional

Morador de Domélia é arquivo vivo da história de Tupá

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

São Domingos do Tupá tinha dois cemitérios, uma igreja, mais de um quilômetro de extensão e mais de três de mil moradores. Hoje, dessa localidade restam alguns túmulos e um cruzeiro tombado. A área está tomada de cana-de-açúcar. O desaparecimento do lugarejo com status de Comarca Eclesiástica da Igreja Católica ocorreu ao mesmo tempo da queda do café, quando o então presidente Getúlio Vargas mandou queimar as plantações. Este trecho da história está vivo na memória do oficial do antigo cartório Henrique Dyna , 82 anos, que vive no distrito de Domélia, município de Agudos (13 quilômetros de Bauru).

Arquivo vivo da história, o cartorário faz questão de frisar que a igreja de Tupá tinha um sino doado por João Paulo VI e muitas fazendas de café. “O José Salmen tinha uma propriedade com 200 mil pés de café. A fazenda São Luiz, que era de Eugênio Zanirato, tinha 300 mil pés. A propriedade hoje tem o nome de fazenda Globo.”

A São Luiz além do café, tinha máquina de beneficiamento, serraria, escola e capela. “Em 1929 com a quebra da bolsa de Nova York e conseqüente baixa nas exportações de café, as propriedades rurais queimaram e arrancaram todo o café. Plantaram algodão e quando a plantação estava em crescimento, chegou uma praga que destruiu as plantações. Foi uma quebra total.”

A partir de então, os moradores da região de São Domingos de Tupá tomaram outro rumo. “Algumas famílias foram para a região de Bastos que, na época era conhecida por Paulista Nova, porque o desemprego foi geral. As pequenas propriedades foram absorvidas por grandes fazendas que se voltaram para a pecuária e reflorestamento. Atualmente, a região tem pinos da Ripasa, Votorantim e Lwart.”

No cemitério dedicado aos moradores, a última pessoa a ser enterrada foi uma mulher da família Polidoro. “Não me lembro o nome dela. Ela morreu em 1954 e como tinha pedido para ser enterrada junto à família, a vontade dela foi respeitada. Na época o cemitério já estava abandonado. Atualmente são só ruínas. Até o cruzeiro veio abaixo. Os atuais usuários da terra respeitaram o local e não plantaram cana muito próximo aos jazigos.”

O cemitério dos índios foi destruído antes e dele não restou nada para ser registrado na história, comenta o cartorário. “Tupá foi uma aldeia. O cemitério tinha muitos túmulos.”

Segundo Dyna Filho, São Domingos de Tupá foi a segunda cidade do Interior de São Paulo entre o rio Tietê e o Paranapanema. “A primeira foi Itu. A região foi escolhida para habitar uma comunidade porque não tinha malária, muito provavelmente porque a água era límpida. Quando os brancos chegaram, na época do desbravamento, tomaram terra dos índios e houve resistência. Morreram de 60 a 70 brancos. Os defuntos foram transportados de carro de boi e enterrados no cemitério.”

____________________

Respeito a água

A abundância de água e sua pureza era algo que saltava os olhos em São Domingos de Tupá, lembra o cartorário. “É até difícil imaginar, mas a água vinha por canaletas construídas em pedra. Cobria cerca de seis quadras da rua. Era água corrente, exclusiva para consumo e todo mundo respeitava. O ribeirão era São Domingos de Tupá que deu o nome ao local.”

Com canecas, a população pegava a água na frente de suas casas. “Depois ela seguia pelo canal, onde se podia tomar banho, lavar roupas. Era a água das Pedras. Uma grande cervejaria pesquisou essa água porque ela é muito semelhante a água do Pilintra que serve a Brahma de Agudos.”

Comentários

Comentários