Bairros

Mundo das motocicletas incorpora mulheres

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

Em Bauru, as mulheres e suas motocicletas estão por toda parte. Pilotando motos cor-de-rosa, atuando como mototáxis, fazendo entregas ou, simplesmente, passeando... Por conta da popularização das motocicletas entre o sexo feminino, novos modelos e equipamentos têm sido especialmente desenvolvido para as consumidoras, que tomam a frente e abrem oportunidades que até então eram exclusivas do sexo masculino. A seguir, exemplos de bauruenses que, indiferentes ao preconceito, adotaram a moto como seu principal veículo.

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Quando a paixão vira profissão

Andar sobre duas rodas também atraiu a atenção de Elaine Cristina Pereira, 24 anos. Ex-operadora de telemarketing, ela decidiu abandonar o emprego e buscar algo que lhe permitisse aliar trabalho a prazer. A alternativa encontrada foi dar aulas de direção de motocicletas em uma auto-escola. “Sempre gostei de motos, então decidi procurar um curso para ser instrutora e trabalhar com isso”, conta.

Mesmo com as desvantagens apresentadas pela profissão, Pereira não se arrepende. “Eu sei que o trânsito não colabora, que é perigoso, que a moto é mais vulnerável... Mas fazer o quê, se é disso que eu gosto?”, analisa.

Um dos fatores que levaram Pereira a preferir ensinar os alunos a pilotarem motocicletas ao invés de carros na auto-escola em que trabalha foi, além da paixão, a facilidade que ela acredita que o veículo permite.

“Penso que os alunos aprendem mais fácil. Com a moto a pessoa tem noção do espaço a sua volta, sabe quanto tem para o lado, para trás. De carro não, é muito largo. Fica difícil para o aluno iniciante calcular a largura e o comprimento do carro”, explica.

E quando o assunto é facilidade, Pereira acredita que as mulheres também saem na frente. “Mulher aprende mais fácil. Elas chegam com mais medo, com mais cautela, são mais comedidas. Para o instrutor é melhor, eu consigo ensinar as técnicas da forma certa. Já ensinar os homens é mais complicado. A maioria deles já tem uma noção, porque aprenderam com o pai ou coisas do tipo. Então, chegam cheios de vícios, e para corrigir fica difícil, pior do que aprender do zero”, explica.

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O prazer em pilotar moto

“É paixão!”. As palavras resumem o sentimento da terapeuta ocupacional Sônia Regina Fraga Lopes, 44 anos, pelas motocicletas. Ela começou a pilotar aos 18 anos, assim que tirou a primeira habilitação. Em uma época que não era comum ver mulheres circulando sobre duas rodas, ela não se reprimiu. “Meu pai e meu tio eram motociclistas e me incentivaram”, lembra.

A partir de então, as motocicletas passaram a fazer parte da vida de Lopes. Sua mais recente aquisição foi também a mais ousada. Há dois anos ela levou para casa uma Burgmann 400 cilindradas, da Suzuki. A moto, que custa cerca de R$ 27 mil e pesa 199 quilos, não intimidou Lopes. “Quando olhei pra ela sabia que tinha de ser minha. Ela é linda, confortável, toda carenada e automática, o que faz toda diferença para uma mulher”, conta.

Lopes acredita que andar de moto deve aliar prazer a praticidade, e foi nestes dois itens que ela se baseou na hora de escolher a sua máquina. “Mulher é bem mais exigente. A gente avalia o conforto, a economia, a beleza, a praticidade... Um dos fatores decisivos na minha escolha foi o fato da minha moto ter bagageiro. Carregar capacete não dá!”, brinca.

E exigência é o que não falta quando se trata da ‘menina dos olhos’ de Lopes. “Eu sou muito ciumenta. Quando levo pra lavar, consertar ou qualquer outro serviço que precise ser feito, eu fico em cima. Se aparece algum risquinho, ah...”, conta.

Ter uma moto potente e confortável pode ser sinônimo de diversão e aventura. É assim que pensa a família de Lopes. Eles são proprietários de quatro motos de grande potência, e oportunidade para curtir o dia com as máquinas é o que não falta.

“O máximo que eu já fui pilotando foi até São Pedro. Mas quando o meu marido assume os guidons, aí viajamos longe. A sensação de liberdade quando se desce a serra de moto para ir para a praia é indescritível, a paisagem é linda”, explica.

Sobre o aumento de mulheres pilotando moto, Lopes acha que ainda tem um diferencial. “Há anos atrás eu chamava a atenção por ser uma mulher pilotando moto, hoje isso é comum. Agora as pessoas ainda olham para mim, mas, na verdade, é a moto que chama a atenção, não mais eu”, afirma.

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Feminilidade faz a diferença

Uma motocicleta cor-de-rosa é a mais nova paixão da gerente Camila Carmo, 22 anos. Ela comprou o veículo há cerca de uma semana e já percebe os benefícios do transporte. Com a intenção de facilitar sua ida ao trabalho, ela tirou carta de moto há dois meses.

“Precisava ganhar tempo e economizar. A moto foi a melhor alternativa que eu encontrei. Eu queria tirar carta de carro e de moto, mas como ia demorar muito o processo e precisava estar habilitada com urgência, escolhi tirar só de moto”, conta.

Carmo conta que não se arrependeu quando fez a comparação entre seu antigo meio de transporte, os ônibus circulares, e sua motocicleta. “Eu levava cerca de 40 minutos para sair de onde moro, no Mary Dota, ao meu trabalho, e gastava R$ 4,00 por dia em passagem. Com a minha moto, levo 10 minutos e a economia, então, é melhor ainda: gasto R$ 7,00 e ando a semana toda”, compara.

Carmo conta que a economia e a agilidade são os fatores mais visíveis, mas não foram os únicos a pesar em sua decisão. “O valor das parcelas do financiamento de uma moto são menos que a metade das de um carro. É mais fácil achar estacionamento para motocicletas, sem contar que eu gosto muito de moto”, enumera.

Ela revela que alguns fatores negativos também foram avaliados. Dentre eles, o perigo e a vulnerabilidade das motocicletas no trânsito. “Eu sei que é perigoso, mas é só saber pilotar e ter muita cautela. Meu pai foi o principal opositor à idéia, ele disse que se eu comprasse uma moto ele ia murchar o pneu todo dia para eu não sair de casa”, conta.

Na hora de escolher qual seria sua nova condução, Carmo avaliou bem os modelos oferecidos pelo mercado. “Tem muita opção. Mas, para mim, moto de mulher tem de ser assim: bonita, leve, baixa e ter onde guardar as coisas. Como eu sempre gostei de rosa, não foi tão difícil me decidir”, conta.

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‘Dirijo por mim e pelos outros’

Há três anos, Renata Carvalho Dias, 30 anos, decidiu tirar sua carteira de motorista da gaveta. Ela é habilitada nas categorias A e B há 10 anos, mas não pilotava motocicletas por medo. “Eu nunca me acidentei, mas sou muito medrosa. Procuro dirigir por mim e pelos outros, moto é muito vulnerável”, explica.

Dias conta que optou por comprar uma moto quando não tinha mais opção. “Eu precisava ir para o trabalho. Para ir de carro gasta-se uma fortuna, a gasolina é muito cara. Ônibus é um transtorno, as vezes você perde, as vezes está lotado, além de ser caro e demorar muito”, enumera.

Atualmente fazendo uso de uma motocicleta, Dias gasta cerca de R$ 5,00 por semana. “Além da economia, posso ir de um lugar ao outro rapidamente”, indica. Por isso, ao analisar sua escolha, Dias não se arrepende. “Tenho carro e moto, mas sempre que posso escolher vou de moto. Não troco por nada.”

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Adaptação

Notando a mudança no segmento de motocicletas, empresas especializadas no veículo e em peças e acessórios decidiram criar equipamentos voltados às mulheres. Por essa razão, já é possível encontrar motos, capacetes, luvas, capas de chuva, dentre outras peças, na versão cor-de-rosa.

“As empresas especializadas também notaram o aumento do público feminino e, com isso, buscaram adequar o mercado aos seus desejos. O sucesso foi tamanho que até alguns homens procuram por motos e acessórios cor-de-rosa”, revela Paulo Rogério Lares, gerente de uma revendedora de motocicletas.

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