O aquecimento da atmosfera é anunciado como um processo contínuo. Para obter sua desaceleração a humanidade teria que diminuir a produção da riqueza, o que nunca seria aceito pelos ricos e revoltaria ainda mais os grandes segmentos de pobres. Emergindo da pobreza, China e Índia seriam os últimos a concordar com isso. Por mais de cem anos entre os mais ricos do mundo – e o mais rico nos últimos setenta anos – os Estados Unidos tem suas lideranças políticas fortemente ligadas ao capital, e lá como cá fadas ricas há trabalhando como cabos eleitorais.
O atual presidente americano ainda tem uma reserva grande de simpatia, mas menor, ao que tudo indica, do que tinha no começo. Ia tirar tropas do Oriente, não tirou. A prisão de Guantanamo seria desativada. Não foi. Adotaria uma posição clara contra as causas do aquecimento do planeta. Adotou?
Se olharmos para o passado, encontramos seres humanos de todo tipo e, claro, entre eles governantes que procedem sempre falando no futuro dos países que governam, mas cuidando somente do futuro imediato de suas carreiras. A busca do poder, pela força ou pelo voto, mostra algumas facetas da personalidade que igualam aqueles que buscam ser tiranos e os que se submetem às práticas democráticas.
Logo percebemos que seus atos são apenas interpretação de papéis para agradar o auditório e quase nada expressão dos seus objetivos. Assim, se os grupos do qual dependem os detentores do poder para se manterem nos cargos forem prejudicados pela desaceleração do aquecimento, os governantes terão de ser trocados.
E os poderosos não pensam em seus filhos, em seus parentes? Pensam. Pensam em vê-los no poder hoje e amanhã. Querem para eles a imunidade que a fortuna e o cargo importante trazem.
Quem tem cargo atropela, mata, desrespeita a dignidade dos humildes, suborna, corrompe e mantém sua projeção mesmo quando é corrompido, usa o dinheiro arrecadado até pelo imposto cobrado dos remédios, nomeia parentes incapazes e prostitutas de alto gabarito social, entre outras coisas. Quem tem muito dinheiro faz tudo isso ou paga bem quem o faça para ele.
Vida luxuosa, parentes arrumados e protegidos, impossibilidade de sofrer punição, estes são os homens e mulheres que decidem se o mundo será um lugar onde se possa viver daqui a meio século. E tudo indica que eles já decidiram. Se ficar muito poluído, lugares altos existem em abundância. Felizmente eles são muito caros. Pouca gente além dos ricos estará lá: só os serviçais.
Como produzir ótimas bebidas excelentes alimentos em espaços não muito grandes, isso já se sabe há muito tempo. Se fizer mau tempo, que sofram os bilhões que estão lá fora. Para centenas de milhares de ricos e alguns milhões de eleitos para servi-los, o tempo clima não conta. O que poderá assustá-los será o tempo de vida, pois sempre será doloroso para os egoístas abandonarem o prazer que o poder e a riqueza trazem.
Diante desses fatos, fica evidente que o mundo ficará mais quente; que a evaporação dos oceanos aumentará, trazendo chuvas, tempestades e ondas marítimas; que cidades próximas ao mar serão em parte ou no todo submergidas; que rios transbordarão e povos ribeirinhos desalojados; as práticas agrícolas alteradas, enfim... coisas terríveis estão a caminho de acontecer. Principalmente para quem não é muito rico.
O autor, Marco Aurélio Pinheiro Brisolla, é jornalista aposentado e colaborador de Opinião