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Outra tempestade

Gino Crês
| Tempo de leitura: 3 min

Foram amplamente divulgados, nestes dias, os maus exemplos de homens que ocupam posições relevantes na política. O País todo, assustado, incrédulo e decepcionado assistiu ao governador de Brasília, José Roberto Arruda, e seus asseclas metendo a mão no dinheiro público, acomodando-o até em meias. A esta visão negativa só nos resta de cognominá-los de desonestos, ladrões, insensíveis mentirosos.

A avalanche de atos improbos como este, vai atolando a nossa esperança de dias melhores num futuro nada promissor. Tal fato podia não ter acontecido se nossa sociedade não viesse caminhando, nos últimos anos, numa escala de perda e esquecimento dos valores morais.

Apropriar-se do patrimônio público não é roubar ao governo. Quem sai prejudicado é a sociedade no seu todo, o cidadão honesto, os pequenos e pobres desprovidos de poder. Dinheiro público desviado de sua finalidade significa menos escolas e hospitais, menos empregos e tantos outros benefícios públicos a que os cidadãos têm direito.

Consultando o Evangelho, deparei-me com o cap. 8, versículos 23 a 27 de Mateus. O Evangelho é pródigo em referências válidas, que ajudam no discernimento da realidade e na tomada de decisões. O Brasil está vivendo a situação dos discípulos na barca. Era noite, estava escuro, e os ventos começaram a soprar com força crescente. Acostumados a remar, os apóstolos foram administrando a situação até que não davam mais conta da tempestade. Aí foram acordar o Mestre, que dormia tranqüilo.

Se dormia, era porque confiava em Deus. Mas confiava também na experiência dos discípulos. Como pescadores deviam saber remar. Acordado, o Mestre serenou os ventos e o mar.

Até aí, o Evangelho, onde tudo é bonito e as soluções são eficazes. Não é assim agora. A barca está furada, fazendo água. Mais um pouco, vai ao fundo. Não se trata de acalmar os ventos. Trata-se de consertar a barca.

Que fazer, então? Na prática, o momento está pedindo uma urgente reforma do Estado brasileiro. Neste sentido, pede importância a própria averiguação dos fatos, que vai ocupando o tempo e as energias do Congresso, e o vai desgastando cada vez mais diante do povo brasileiro, que já começa a perder esperança nos seus representantes.

A urgência maior, que deveria medir a boa vontade de todos os envolvidos, não é buscar posições vantajosas para as próximas eleições. Deve-se acabar com o corporativismo, impedir a eleição de candidato com “ficha suja”.

O momento é agora, para de uma vez por todas colocar-nos de acordo sobre mudanças estruturais em nosso sistema político. Cabe à cidadania se articular, para apresentar propostas concretas, que não podem ficar condicionadas aos interesses menores da conjuntura atual. Então, o impasse atual encontraria um caminho de solução. E seria possível aproveitar os ventos para conduzir a barca no rumo certo.

Como curiosidade, comenta-se que nos EUA fabricaram uma máquina que pega ladrões automaticamente. Testaram em Nova York: em 5 minutos a máquina apanhou 1.500 ladrões. Levaram para a China: em 3 minutos a máquina apanhou 3.500. Na África do Sul, em 2 minutos a máquina apanhou 6.000 ladrões. Trouxeram para o Distrito Federal. Em 1 minuto, roubaram a máquina!

O autor, professor Gino Crês, é colaborador de Opinião

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