Não é fácil para uma nação que busca escapulir do ranking da miserabilidade ter como adversário, além de uma certa letargia cultural que nos prende ao atraso, e aqui vale para qualquer modelo que a carapuça servir, ter de conviver com uma crônica doença chamada corrupção. Um mal que, é prudente lembrar, permeia todas as sociedades, seus governos e respectivos sistemas, sejam eles pautados pela política, economia ou religião. A complexidade do caso, portanto, não reside no diagnóstico positivo do problema, mas, essencialmente, na forma como lidamos com ele.
E o Brasil é um caso clássico de ineficiência no tratamento, que não é nem preventivo, nem paliativo, nem curativo. Pela fragilidade histórica de nossa cidadania e com um sistema imunológico frágil frente a esse tipo de parasita, os efeitos colaterais da corrupção causam desastrosos danos à nossa saúde social. Primeiro porque somos um país rico, mas desigual; segundo porque vivemos numa economia de mercado, mas com um capitalismo meia-boca, daqueles que, ainda, privatizam os lucros e socializam os prejuízos. E, por fim, mesmo num regime democrático, não faltam exemplos escabrosos de representantes do povo em explícito desrespeito ao interesse público.
Nos escândalos recentes, e nos nem tão recentes, cujas imagens foram consumidas beirando um voyeurismo pornográfico, constatamos, pelo menos, três situações que nos ajudam a refletir sobre a questão: uma é boa, a outra é ruim e uma outra cabe a você julgar. Vamos a elas, pela ordem: a boa é que a cada dia ficamos sabendo um pouco mais das pilantragens que fustigam a nossa costumeira índole cordial e tolerante. Em outros momentos a bandalheira corria solta, mas por censura, cooptação ou conveniência, práticas que nem estamos tão livres assim, tudo parecia ficar no campo das hipóteses. A ruim é que pouco ou nada acontece de punição a quem comete esses crimes, mesmo àqueles pegos com a boca na botija. A terceira, e provavelmente a mais enigmática de todas, temos que debitar na nossa própria conta. Quase sempre a nossa revolta é fogo de palha que no próximo pleito permite a recondução ao poder de figuras sabidamente desonestas, para dizer o mínimo.
Em geral, a negligência, a acomodação e a indiferença dedicadas na escolha dos nossos políticos ou mesmo a complacente indulgência que demonstramos a tantos fornecedores, prestadores de serviços e afins, que entendem corrupção como investimento, é o que acaba sustentando a permanência da malandragem. Para piorar, não são poucos os eleitores que se orgulham em elevar à categoria de heróis aqueles que possuem a exímia habilidade de roubar e se safar. O que passa batido nesse espetáculo todo é que essa grana que circula por meias e cuecas, e por tantos outros canais que você nem ousaria imaginar, visíveis ou não, é nossa! Você já parou para pensar nisso?
O autor, Luís Victorelli, é jornalista e colaborador de Opinião