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O Natal das almas solitárias


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A Missa do Galo terminou bem antes da meia-noite. Padre Eduardo se deixara contaminar pela aflição dos fiéis, ansiosos por retornarem às suas casas. Percebera as crianças já murchas de sono. Abreviou a homilia, pulou orações. Desejou a todos Feliz Natal e lhes deu a bênção final. Uma dezena de paroquianos invadiu a sacristia para manifestar votos de boas festas. Os presentinhos ficaram em cima da mesa: meias, livros, CD do Chico Buarque que ele tanto gosta, camiseta lisa de usar por baixo da camisa, mais um “Código Da Vinci” (o terceiro). Nenhuma cueca, que era o de mais precisão. Quem se atreveria dar alguma coisa dessas a um homem de Deus?

Padre Eduardo era ainda jovem e esguio. Estudara em Roma. Guardados os paramentos se viu sozinho. Ninguém se lembrou de convidá-lo para cear lá em casa. Miseravelmente só, em plena noite de Natal... O celibato é um dom que vem de Deus. Sua vocação para o sacerdócio sempre foi mais forte que as tentações. Engraçado... Às vezes sentia saudades dos filhos que nunca teve. Lembrava dos pais, já falecidos, que faziam questão de reunir todos os filhos à mesa, na hora das refeições. Comer é comunhão, partilha, entremear ao cardápio o diálogo ameno e alegre.

Naquela noite a solidão bateu forte. Padre Eduardo revirou os embrulhos de cores brilhantes e encontrou o que bastava: um panetone e uma garrafa de vinho. Enfiou-os na pasta usada para levar sacramentos aos enfermos, e saiu à rua. A Praça da Matriz, no centro deteriorado da cidade, deixara há muito de ser o lugar dos passeios românticos. À noite, com o comércio fechado, servia de ponto à prostitutas e travestis. Sem o colarinho clerical Padre Eduardo podia ser confundido com um homem comum, em trânsito forçado pelo local.

Valéria era dessas “milonguitas de pálpebras murchas”. Trazia os olhos inchados, o peito sufocado, o coração miúdo. Desde o fim da tarde chorara copiosamente ao recordar os natais de sua infância no oeste de Santa Catarina. Lembrou da família que a repudiara, do marido que a abandonara, do filho que dela se envergonhava. Em certos momentos sentia ódio também de Deus que a condenara a uma sina tão cruel. Pudesse, não trabalharia naquela noite. O porteiro do hotel já ameaçara colocar sua mala na rua.

Mirou o homem de pasta na mão, com cara de encarregado de conferir o caixa da Loja R$ 1,99. Enquadrou-o na tipologia adquirida em tantos anos de calçada: tinha o jeito ingênuo dos que buscam apenas se aliviar e, na hora da cobrança nem pechincham, com medo do escândalo. Trocaram olhares. Ele só conseguiu emitir um “se”. Ela apontou o hotel da esquina. Caminharam lado a lado em silêncio, ela sobrepondo o seu profissionalismo e ele apreensivo frente ao receio de ser flagrado por algum conhecido. Subiram as escadas de madeira. Cada rangido desalojava baratinhas ariscas das frestas dos degraus.

Ao abrir o primeiro botão, ela ameaçou dizer qualquer coisa, mas ele se adiantou. Explicou que não estava ali em busca de sexo, e sim de companhia. Haveria, contudo, de pagar-lhe o devido. Contou-lhe de seu sacerdócio e da sua solidão, e indagou se ela se dispunha a orar com ele e compartir a ceia. Valéria sentou na cama, enfiou o rosto entre as mãos e desabou em prantos. Agora era um choro de alívio, de gratidão por algo que ela não sabia definir, quase de alegria. Logo falou de seus natais na roça. Do presépio armado pelo avô com figuras esculpidas a canivete. Do leitão engordado no chiqueiro do quintal para a ocasião. O terço puxado pela vizinha na falta de igreja e de padre naquelas lonjuras.

Padre Eduardo propôs fazerem uma oração. Ela se ajoelhou e ele a tomou pela mão e fez com que se sentasse de novo. Ele ocupou a única cadeira do quarto. Abriu o Evangelho de São Lucas e leu, pausadamente, o relato do nascimento de Jesus. Em seguida, perguntou se ela gostaria de receber a eucaristia. Valéria pareceu levar um choque. Como, uma prostituta receber a hóstia? Sem ter se confessado? O sacerdote leu o texto de Mateus (21,28): “As prostituas vos precederão no Reino de Deus”. E acrescentou que era ele, e essa sociedade injusta, cínica e desigual, que deveriam se confessar a ela e pedir perdão por a terem obrigado a uma vida tão degradante.

Após a comunhão, padre Eduardo tirou dois copos da pasta, encheu-os de vinho e partiu o panetone. Os dois ainda conversavam sobre suas vidas quando clareou o dia.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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