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O narcisismo das diferenças menores

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Uma teoria aparentemente relevante pode ser encontrada nas obras de Sigmund Freud, num ensaio chamado “O Tabu da Virgindade” (1917). Freud cunhou a expressão “o narcisismo das diferenças menores” para descrever um fenômeno que se repete com freqüência: a hostilidade entre grupos sociais que são iguais ou semelhantes em todos, menos em alguns aspectos menores. Sua observação pode ser expressa na forma de uma hipótese ou teoria geral. A de que grupos sociais distintos, porém semelhantes, têm probabilidade maior de serem hostis entre si do que grupos que possuem diferenças óbvias. Por exemplo: na Rússia de Stálin era mais perigoso ser trotskista do que antimarxista. Cerca de 60 anos depois de Freud, Pierre Bourdieu no seu célebre estudo da burguesia e da classe trabalhadora na França, resumiu nos seguintes termos sua análise das diferenças entre as duas classes: “A identidade social consiste na diferença, e a diferença é afirmada contra aquilo que é mais próximo e que representa maior ameaça”.

Desculpe-me o complicômetro. Escalei as prateleiras da estante para alcançar alguns livros do tempo em que eu pensava que os sociólogos iriam salvar o mundo. Inspirei-me no que dizem os analistas políticos que prevêem uma disputa polarizada rumo ao Palácio do Planalto. Ou então, que a eleição será “plebiscitária”, ou seja, os eleitores iriam decidir quais governos foram melhores: o de Fernando Henrique ou o de Lula. Em ambos os períodos, educação, saúde, moradia, nível de emprego e endividamento público foram e continuam vergonhosos, mas o que importa é cortejar quem deu mais Bolsa Família, quem entesourou mais dólares, quem emprestou para o FMI, quem foi mais elogiado pela imprensa estrangeira “como nunca na história deste País”. Vai prevalecer o “narcisismo das diferenças menores”.

O presidente Lula exprimiu recentemente sua dúvida cruel sobre se dois craques podem estar no mesmo time, como que desaconselhando uma chapa com José Serra e Aécio Neves. “Não sei se dois Coutinhos, se dois Tostões, se dois Dirceu Lopes dariam certo no mesmo time. Não sei. Às vezes é preciso fazer uma composição diferenciada para poder dar certo, então... mas aí é o PSDB quem decide” - foi o comentário comparativo que Lula fez. A vitória de Dilma representa para o presidente a sua continuidade no poder. “Quando eu vier aqui em dezembro do ano que vem, eu serei rei posto. Já terá outra pessoa eleita e rei posto não faz promessa”. Certamente ele quis dizer “rei morto”, porém posposto.

Serra logo contestou a tese, segundo a qual uma chapa puro-sangue, que reúna Serra e Aécio, talvez seja prejudicial à oposição. Ele acha que é possível ter dois craques no mesmo time. “Dois craques podem jogar no mesmo time. Quando um jogador é muito bom, dá para duplicar, encontrar o jeito de se arrumar em campo” - sublinhou o governador paulista no diálogo narcíseo. Se a grande distinção da campanha polarizada à Presidência for baseada em estratégias futebolísticas, seria melhor chamar o Dunga.

O mérito de FHC foi ter reunido a brilhante equipe de economistas que concebeu o Plano Real e se empenhado com vigor na manutenção da estabilidade econômica, hoje um bem de valor real para a população brasileira. Os bons resultados do governo Lula são notórios. Se for verdade, como quer a oposição, que ele se aproveitou de uma fase de expansão da economia mundial e poderia ter crescido muito mais, também é verdade que a economia brasileira mudou de patamar em relação à economia mundial sob seu governo. Serra sente dificuldade em descobrir um candidato a vice no DEM, partido aliado envolvido no panetonegate. Lula complica-se com o PMDB no instante em que o deputado Michel Temer, nome consensual no partido para ser vice de Dilma, foi envolvido como um dos beneficiários de financiamentos da Construtora Camargo Correa. A pergunta óbvia a ser formulada por um historiador cultural é: “O que essas diferenças podem interessar ao País?” São “sinais particulares” de ambos os lados com dificuldades de encontrar gente honesta para bater chapa.

Sinais de identidade não têm importância conceitual, mas levam à paixão pela própria imagem, com efeitos desastrosos. Em 1667 a Igreja Ortodoxa Russa sofreu um cisma. O concílio da igreja determinou que o gesto da bênção deveria ser feito com dois dedos, em vez de três. Os velhos crentes não concordaram. Por um fato semelhante, o nosso Aleijadinho quase foi embarcado para Portugal para responder à Inquisição. Nas suas esculturas Jesus abençoa com dois dedos, mas com o dedo médio sobre o indicador, sinal maçônico.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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