Aquele antigo ditado dos motoristas, de que “ter um carro é ter uma família”, não poderia estar mais atual. A frase, utilizada para dimensionar o quanto se gasta para manter um veículo, foi comprovada com um índice recorde no ano de 2009.
No ano passado, os proprietários de automóveis pagaram 8,41% a mais para realizar a manutenção e pagar impostos e seguros - o maior reajuste dos últimos cinco anos, perdendo apenas para a variação de 2004, que ficou em 11,29%. Ao longo de todo o ano, em média, os condutores gastaram R$ 851,00 por mês com seus veículos, conforme dados da Agência AutoInforme, que apura o Índice de Manutenção do Carro (IMC), mais conhecido como Inflação do carro.
O grande responsável pelo alta do gasto médio mensal foi a elevação do álcool anidro, que subiu 70% apenas nos últimos oito meses de 2009, em Bauru. Embora o IMC tenha se mantido estável até meados do ano, a partir do segundo semestre o índice iniciou uma escalada de crescimento que se prolongou até dezembro, pressionado pela produção de cana-de-açúcar abaixo da média devido ao excesso de chuvas e ao subsequente início do período de entressafra desta matéria-prima.
Além disso, conforme destaca o economista Wagner Ismanhoto, muitos produtores privilegiaram o abastecimento do mercado internacional, cuja demanda por açúcar tem se mostrado muito mais lucrativa. Simultaneamente a este cenário de escassez no mercado interno, o economista explica que houve grande aumento da procura pelo combustível à medida que a frota de veículos flex se ampliou.
“A partir de abril, o governo passou a incentivar o setor automobilístico, principalmente pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Com esse aquecimento, todos os segmentos ligados a este mercado também se movimentam, o que favorece o reajuste no preço dos produtos e serviços”, detalha.
Manutenção
De fato, conforme o levantamento da Agência AutoInforme, além dos gastos com etanol, as outras principais altas do ano foram nos serviços de alinhamento de direção, que ficou 16,72% mais caro, e do balanceamento de rodas, que teve alta de 15,42%. No total, os serviços voltados para o setor automobilístico encareceram 9,15% e foram responsáveis por um gasto médio mensal de R$ 195,16.
Para o engenheiro mecânico especialista em carros, Marcos Serra Negra Camerini, não há nada que justifique o aumento dos custos com reparos acima de 4,31%, índice da inflação de 2009, conforme com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA). “Esse aumento considerável nos serviços é resultado de pura especulação e veio em péssima hora. Os consumidores já estão extremamente sobrecarregados com o custo do combustível e aumentar o custo da manutenção é uma forma de explorar a população”, avalia. Na opinião do especialista, a única alta justificada é a do óleo lubrificante do motor, que subiu 9,87% em 2009.
Ainda que o aumento na quantidade de veículos bicombustíveis tenha colaborado de maneira indireta para a alta no preço do álcool, Camerini destaca que a possibilidade de escolha que ele oferece favorece os consumidores a utilizar o bom senso. Nesse sentido, ele alerta que os motoristas devem considerar preço e a qualidade dos produtos antes de escolher onde realizar a manutenção ou o abastecimento do veículo.
“Se o preço for muito abaixo da média praticada pelo mercado, desconfie. Ninguém faz milagre e, certamente, o consumidor vai pagar mais caro para consertar o estrago que o carro vai apresentar futuramente”, ensina.