Ele coloriu as lembranças de Bauru
“Se pudesse voltar no tempo, a fotografia faria parte da minha vida outra vez”. A frase dita por Yvan Pereira Guedes resume a paixão e a importância que a fotografia teve e ainda tem em sua vida. Tudo começou quando ele ainda era um menino, quando aprendeu o ofício com o tio. A dedicação à arte de fotografar foi tanta que o levou à Alemanha, onde aprendeu a fazer fotos coloridas e se tornou pioneiro da fotografia do gênero na cidade.
Amante da tecnologia, “seo” Yvan diz que não é ressentido pelo fato de as modernas máquinas digitais terem tomado o espaço da fotografia manual, que precisava de laboratório. “Gosto da modernidade porque acho tudo mais fácil”, diz. Aposentado da profissão e tendo passado o legado ao filho Flávio Guedes, hoje ele se diz um artista da fotografia e a tem como hobby.
Casado há 58 anos com Maria, Yvan Pereira Guedes afirma que o amor verdadeiro é a coisa mais maravilhosa que pode acontecer na vida do ser humano. Com quatro filhos e seis netos, ele acredita que a família é o que há de mais importante. E por falar em casamentos, por suas lentes passaram centenas deles. Esse também é um dos temas da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade. Confira!
Jornal da Cidade - O senhor descobriu a fotografia ou ela o descobriu?
Yvan Pereira Guedes - A minha carreira foi herança de um tio que já trabalhava em Bauru, Carlos Giaxa. Eu e meu irmão Aldire trabalhávamos com esse tio em uma loja da Batista de Carvalho. Eu tinha uns12 anos quando comecei a trabalhar com fotos e nunca mais parei. Digo, que nos encontramos.
JC - O senhor chegou a trabalhar em outra cidade?
Yvan - Em 1951, com idade avançada, decidiram fechar a loja. Eu já estava casado e procurando algo para me estabelecer. Fui para Adamantina e fiquei um ano lá. O dinheiro dos agricultores era pouco e a cidade, muito nova. Não me dei bem e voltei a Bauru. Abri a Guedes Fotografia, em 1953, e os negócios prosperaram.
JC - A Guedes Fotografia foi um negócio rentável?
Yvan - Foi uma bela loja e ganhei muito dinheiro com ela, sim. Depois ampliamos e compramos o prédio que, atualmente, está alugado. Tempos depois abri outra loja na avenida Rodrigues Alves. Naquele tempo também trabalhei muito com o “Salão da Criança”. Fazia álbuns infantis, mas não me dei bem, não. Rentável mesmo foram os casamentos.
JC - Imagino que tenha muitas histórias sobre esses momentos...
Yvan - Os casamentos foram as melhores coisas com as quais trabalhei. Foram centenas de cerimônias fotografadas, muitas de pessoas conhecidas, como Érico Braga, por exemplo. Fazíamos muitos casamentos na região de Bauru e até fora do País, como no Paraguai. Já fiz casamentos com mais de cinco mil pessoas. Em um deles, o padre faltou à cerimônia. Depois de 40 minutos de atraso, as pessoas saíram procurando por ele e o encontraram para fazer o casamento. Já vi noivos desmaiarem no altar.
JC - Na arte de fotografar, o que mais lhe agradava?
Yvan - Pessoas em grandes eventos sociais, como casamentos mesmo.
JC - Estudou fotografia?
Yvan - Fiz muitos cursos em São Paulo, Salvador, Fortaleza...Mas percebemos que São Paulo era o centro da fotografia. Depois do curso, nos reuníamos para discutir sobre o assunto. Mesmo não trabalhando mais como profissional, ainda vou a exposições de materiais fotográficos em São Paulo porque gosto de ver os novos equipamentos do mercado.
JC - O senhor fez muitas exposições de suas fotos?
Yvan - Sempre, isso era normal. Uma coisa bastante comum era participarmos de bailes, fotografar tudo e fazer exposições nas vitrines das lojas.
JC - Além da loja, se dedicou a outros trabalhos?
Yvan - Trabalhava na Polícia Técnica no período noturno. Quando precisam de fotógrafo, eles me chamavam. Cheguei a sair de bailes para atender a polícia. Era engraçado porque os fotógrafos usavam traje de gala nos bailes de formatura. Muitas vezes eu deixava meu filho tirando as fotografias e ia de smoking atender a polícia. Também fazia trabalhos para jornais.
JC - O senhor fazia fotos jornalísticas?
Yvan - Fiz muitas. Entregava fotos para o Correio da Noroeste, Folha do Povo, Diário de Bauru e ainda mando para o Jornal da Cidade. Contribui muito para o jornalismo da cidade. O que mais fotografei, acredito, foi futebol, Carnaval e casamentos. Tive vontade de fazer fotojornalismo, mas naquele tempo, isso não existia na cidade ou região.
JC - A fotografia é hereditária em sua família?
Yvan - Meu filho se interessou pela fotografia. Ele estudou até o quarto ano de engenharia, mas abandonou o curso porque não estava se sentindo realizado e foi tratar de fotografia comigo. Hoje ele faz o trabalho que eu fazia. Faz casamentos, eventos, tudo com máquinas modernas e digitais. Eu até trabalho com as máquinas modernas, também, mas não faço serviços profissionais.
JC - Qual é o espaço da fotografia em sua vida hoje?
Yvan - Faço fotos artísticas de coisas belas. Por exemplo, vejo uma árvore que me chama a atenção, vou lá e faço a imagem. Hoje é um hobby. Tenho cerca de 400 máquinas antigas em casa. Já fiz muitas exposições com elas na cidade e região. Sempre que pedem eu faço.
JC - O que fotografar representa para o senhor?
Yvan - Sempre fui um apaixonado por fotografar e nem podia ser diferente já que foi o único emprego da minha vida. Se pudesse voltar no tempo, voltaria para fotografar novamente. Tudo o que fiz foi por consequência dela, viajei muito pela fotografia. Fiz curso técnico de contabilidade, porém, não trabalhei na área.
JC - Em quais países esteve?
Yvan - Em 1965 fui para a Alemanha ver como era o processo da fotografia colorida, que só era feita em São Paulo. Nesse tempo, a “Agfa”, na Alemanha, dava a possibilidade de fazermos fotos coloridas. Então fui conhecer as químicas usadas para fazer em Bauru. Trouxe a tecnologia para cá e fiz as primeiras imagens coloridas daqui. Foi uma viagem ótima, aprendi muito. Atravessei o “Muro da Vergonha”. O País ainda respirava a II Guerra Mundial, havia ruínas por todos os lados, principalmente na Alemanha Oriental. Da Alemanha fui para a Inglaterra e França, tudo em nome da fotografia. Meu intuito era conhecer novas técnicas e fazer em Bauru. Antigamente, as fotos eram pintadas, uma coisa artesanal.
JC - A foto artesanal era mais prazerosa que a moderna?
Yvam - A tecnologia foi melhorando as fotos. Todo mundo queria fazer fotos coloridas e não mais pintura. A arte foi se perdendo, hoje quase não há. Ninguém mais fica em laboratórios, é tudo digital. Antigamente éramos químicos em fotografia. Gosto da modernidade porque acho tudo mais fácil.
JC - Sua esposa me disse que se conheceram dançando?
Yvan - (Risos) É verdade. Estudávamos no Guedes de Azevedo e havia brincadeiras dançantes. Começamos a namorar e estamos juntos há 63 anos, entre namoro e casamento, e continuamos dançando. O respeito mútuo, boas maneiras, compreensão e amor são o segredo para um casamento durar tantos anos. Tivemos quatro filhos, seis netos e somos muito felizes.
JC - A dança é outra paixão?
Yvan - E como é! Frequentamos muitos bailes ainda hoje. Sexta-feira é o dia da dança. Todo sábado saímos com os amigos. Para você ter ideia, antigamente nem pegávamos mesas nos bailes, dançávamos a noite toda. Também gosto muito de filmes. “E o vento levou” é meu preferido, nem sei quantas vezes vi. Estou comprando filmes antigos e fazendo uma coleção para a família.
JC - A família é...
Yvan - A coisa mais importante que tenho.
JC - A amizade significa...
Yvan - Temos bons amigos, graças a Deus. Construímos grandes amizades ao longo desses anos e procuramos sempre estar ao lado deles.
JC - Bauru passou por suas lentes durante décadas. Quais foram as mudanças mais marcantes que o senhor nota?
Yvan - Hoje Bauru é uma cidade grande. Antigamente conhecíamos todo mundo da rua Batista, que era o ponto de encontro da cidade. Agora vou aos sábados e é difícil ver alguém lá.
JC - Tem boas lembranças da infância?
Yvan - Meu pai foi um dos primeiros maquinistas da Noroeste e cuidou muito bem da nossa família. Gostava muito de nadar, até participava de campeonatos no Bauru Tênis Clube (BTC), mas meu forte foi trabalhar com fotografia, desde criança.
JC - Qual é o segredo para tanta saúde e lucidez aos 80 anos de idade?
Yvan - Caminho um pouco e danço muito. A dança deixa o corpo e a mente saudáveis. Escuto músicas boas e tranquilas, não fumo, bebo pouco e procuro sempre me alimentar de maneira saudável.
JC - É um homem realizado?
Yvan - Sim. Tudo o que planejei, consegui realizar, graças a Deus. Minha esposa sempre me ajudou em tudo. Tudo o que eu ia fazer, tinha a opinião e a compreensão dela.
JC - Se pudesse deixar um conselho para os jovens, qual seria?
Yvan - O que digo é o seguinte: se você gostar de uma moça, case-se e continue com ela, porque o amor é a melhor coisa que pode acontecer em sua vida. Na vida profissional, para ter um bom futuro é preciso fazer o que se gosta e ser honesto.
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Perfil
Nome: Yvan Pereira Guedes
Idade: 80 anos
Local de Nascimento: Bauru
Signo: Câncer
Esposa: Maria de Lourdes
Filhos: Maria Fátima, Fernando, Flávio e Fernanda
Hobby: Fotografia
Livro de cabeceira: Bíblia
Filme preferido:“E o vento levou”
Estilo musical predileto: Samba
Time: Noroeste e São Paulo
Para quem dá nota 10: Para a instituição “Rafael Maurício” que cuida de pessoas deficientes
Para quem dá nota 0: Para os políticos corruptos
E-mail: www.yvanguedes.com.br