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Deficiente visual supera adversidade

Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

Este ano, Claudice Matias de Oliveira Grin completa os últimos meses de disciplinas na Universidade do Sagrado Coração (USC), aluna do curso de psicologia. Seria uma notícia habitual, com divulgação na coluna Vida Profissional do JC de domingo, não fosse a deficiência visual e força de vontade da futura psicóloga.

Nascida na zona rural de Macatuba, Claudice passou por problemas quando ainda estava em formação, na barriga de sua mãe, e nasceu completamente sem visão. Sua mãe teve rubéola durante a gravidez e a bebê veio ao mundo sem enxergar, algo que tornou-se motivo de medos, receios, mas também motivo de amor incondicional à vida com o passar dos anos.

Hoje, depois de ter passado por inúmeros desafios e tendo buscado sempre um caminho independente, Claudice cursa o último ano de psicologia, restando apenas estágios para completar o curso superior, visto que finalizou todas as matérias com ótimas notas. “Por causa da bolsa de estudos, eu tenho que fazer o curso mais devagar, mas o ambiente da faculdade nem me deixa com vontade de sair. Todos são muito atenciosos por lá, desde quem faz a faxina até o chanceler”, agradece.

Na verdade, quando entrou na USC, Claudice havia se interessado pelas aulas de história, mas, segundo ela, “as aulas de história não gostaram muito de mim”. Com isso, decidiu mudar para o curso de fisioterapia e o problema foi outro: “as aulas de fisioterapia exigiam muito a noção visual e acabei desistindo”, declara.

Mas não foi realmente uma desistência, era apenas uma mudança no trajeto. Decidiu tentar psicologia, área que lhe chamava a atenção por poder ajudar diretamente o próximo. “Eu sempre amei psicologia e me interessei pela área ao recorrer a terapia para sanar alguns problemas emocionais que tive por causa da deficiência visual”, destaca.

Planos

Atualmente, Claudice frequenta as últimas aulas de estágio na USC e atua como estagiária na Associação Movimento de Assistência ao Deficiente Físico (Amai) de Jaú, onde atende pacientes uma vez por semana.

Claudice deseja se especializar em terapia de casais, buscando inspiração em sua própria vida para ajudar quem precisa. “Eu acho que muitos relacionamentos acabam por motivos pequenos demais. Eu e meu marido, por exemplo, atravessamos inúmeras dificuldades e nunca brigamos por isso”, conta ao lembrar de João Carlos Grin, que também era deficiente visual e ficou ao seu lado durante 20 anos, até 2008, quando faleceu devido a um câncer na bexiga.

Agora, o projeto de vida de Claudice inclui se especializar em atendimento de casais e conquistar seu espaço no meio profissional. “Planejo abrir uma clínica de psicologia com uma amiga minha de Macatuba”, garante a estudante de psicologia que não para de sonhar e pensa em fazer pós-graduação fora do Brasil.

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Caminho

Claudice Grin se define como uma pessoa muito “fuçada” por realizar tudo o que lhe é proposto, independentemente do tipo de tarefa. Prova disso é sua vontade de sair de casa em busca de seus sonhos desde muito jovem.

Com cerca de 18 anos, Claudice saiu de Macatuba e veio morar em Bauru para estudar no Lar Escola Santa Luzia. Mas se engana quem pensa que ela buscou os meios mais fáceis para implementar seus estudos. Ao mudar-se para a nova cidade, onde ficou por três anos, a jovem decidiu morar em uma pensão localizada na rua Gustavo Maciel. Dessa maneira, Claudice acostumou-se desde cedo a morar sozinha, cuidar e organizar suas coisas.

Depois de passar o tempo em Bauru estudando braile, artes e outras importantes disciplinas que carrega consigo até hoje, Claudice voltou para Macatuba, mas não conseguiu ficar parada por muito tempo. Seis meses se passaram e ela saiu novamente da cidade natal, agora a caminho de Igaraçu do Tietê para estudar na escola estadual José Conti, que oferece salas com aula especialmente adaptada para deficientes visuais.

Realizou todo o ensino fundamental e médio na nova cidade, onde conheceu João Carlos Grin, que viria ser seu futuro marido. João Carlos, também deficiente visual, se encantou com Claudice. “Foi amor sem primeira vista”, brinca ao lembrar de como o conheceu.

Casaram-se e moraram juntos por 12 anos, superando todas as dificuldades e caminhando lado a lado para transpor os desafios do dia a dia. Entretanto, há cerca de dois anos João Carlos faleceu devido a um câncer na bexiga. “Ele era uma pessoa maravilhosa. Fui muito feliz ao lado dele nos oito anos de namoro e 12 anos de casamento e senti muito por ele ter me deixado”, lamenta.

Depois de finalizar os estudos em Igaraçu do Tietê, Claudice entrou na USC mas continuou morando em Macatuba, onde vive até hoje. Ela é quem toma conta de praticamente tudo na casa. “Só não faço a faxina. Quem me ajuda nessa parte é meu irmão, mas a casa nem fica suja, porque sou extremamente organizada”, garante.

Sobre as tarefas do dia a dia, Claudice assegura que realiza tudo com perfeição. “Eu lavo e passo roupa, cozinho, lavo o banheiro, faço compras e tudo o mais que precisar”, afirma ao revelar que não tem receio em pedir ajuda caso ache necessário.

Além disso, a vaidade não fica de lado. “As roupas estão sempre em ordem, afinal de contas eu tenho que ficar bonita, não é mesmo?”, brinca ao falar sobre a organização na rotina diária. “Minha casa é muito organizada, não tem nada fora do lugar. Eu sei exatamente onde está tudo”, garante.

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