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Tempos Modernos: ser ou não ser, eis a questão

Janira Fainer Bastos
| Tempo de leitura: 3 min

Tempos Modernos... O título lembra o filme da década de 30 criticando a era industrial, quando Carlitos fala da depressão americana após a quebra da Bolsa de Valores, em 1929. Os tempos modernos tiveram início no ano de 1453 e terminaram com a Segunda Guerra Mundial. Assim disseram os historiadores. O período contemporâneo é dito pós-moderno e tem como característica a recuperação de informações e um alto índice de intertextualidade, ou seja, citações a obra de autores antigos ou não. Na área cultural da pós-modernidade vive um povo estranho que não acredita estar cometendo crime de lesa majestade se, por acaso, misturar uma recente descoberta sobre fibra óptica com uma banda de rock. Desse grupo deve fazer parte o autor de Tempos Modernos. Percebi as conexões assim que liguei a televisão para ver Antonio Fagundes, meu ator predileto. Reconheci o parentesco entre dois textos que adoro. É possível ver na novela a repetição de alguns traços de “2001 uma odisséia no espaço” e do “Rei Lear.”

Kubrick, o diretor, foi uma figura complexa e usou subtextos no filme, que aparentemente não tem sentido, sendo de um devagar proposital, pois tudo no espaço sideral parece ser em câmera lenta. Na ficção científica era o HAL 9000, um computador enlouquecido com a ideia de ser desligado. No prédio é Frank. Tudo indica que a máquina está sendo manipulada pelo arquiteto vingador.

A história de Lear e as filhas Gonene/Regane/Cordelia, pertence ao chamado período sombrio de Shakespeare. Ele é um dos autores mais adaptados devido a atualidade de seus temas, pois festeja o amor, o ódio, a música, a amizade, a beleza variável e constante da natureza, mostrando os seres humanos com sua experiência, seu senso comum, sua sabedoria e suas tolices. No Rei Lear colocou o destino no lugar mitológico do qual ele jamais deveria ter saído. O dramaturgo leva o espectador ao mundo de um homem em decadência que resolveu dividir o reino entre as três filhas em troca de amor. No plano paralelo renegou o filho bastardo e expulsou do palácio a caçula Cordelia por aparentar indiferença diante da divisão da herança. Porém, o amor que vai além do sangue conduzirá o rei à desgraça. Ao mesmo tempo, Shakespeare retratou um amor sublime e sem limites, uma das forças responsáveis por sua capacidade de comunicar-se com as pessoas em todas as épocas.

Tempos Modernos possui todos os ingredientes necessários para transformar-se na novela do momento. Bons atores, quase todos com experiências teatrais em peças tragicômicas e suposto conhecimento dos bons textos do bardo inglês. O diretor declarou que qualquer semelhança com Shakespeare era mera coincidência... Coincidência ou não: “palavra de rei não volta atrás” é o mote do personagem principal. De acordo com alguns críticos, Shakespeare recriou em Lear uma espécie de Deus mortal, qual Salomão, um arquétipo do governante exemplar. Leal/Fagundes é um paradigma exacerbado dessa grandeza. O ator expressa seus sentimentos com uma verve brutal, revelando as relações pouco saudáveis de seu personagem com o poder, com os “súditos”, com os amigos, com as filhas e até consigo mesmo, levando sentimentos que vão além da aparência, às raias do insuportável. A peça é trágica, mas na novela tudo pode dar certo no final. Rei Lear ou Tempos Modernos não importa, pois fazer conexões entre obras que nasceram separadas não é ilegítimo e o que conta é a intenção do autor. No caso da novela parece que Bosco Brasil pretende educar e divertir seu público.

A autora, Janira Fainer Bastos, é articulista do JC

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