O hooligan é uma espécie de vândalo criado pela mídia inglesa desde os anos 1960. Vez por outra sua performance como de-sordeiro consegue se sobrepor ao futebol que lhe deu origem. A desordem produzida nas ruas chega a ser um espetáculo midiático mais importante que o gol e o artilheiro. De que extrato social ele provém e de que cultura ele mais se aproxima? Face as repetições das cenas na tevê e a suítes dos jornais, não há quem não saiba o que aconteceu depois do jogo do São Paulo com o Palmeiras. Na Copa do Brasil do ano passado (Corinthians X Vasco) houve um quebra-quebra, ônibus queimados e um corinthiano morreu espancado. Na Europa Central as autoridades resolveram acabar com esse tipo de farra depois que os hooligans britânicos deixaram um saldo de 39 torcedores mortos, na partida entre o Juventus e o Liverpool, em 1985. Câmeras começaram a ser instaladas nos estádios. Ficou mais fácil identificar os briguentos e trancafiá-los com penas cumuladas com a cassação do direito de assistir a partidas de qualquer esporte por dez anos. Nos dias em que seu time joga o torcedor punido tem que se apresentar à delegacia de polícia e lá permanecer durante todo o tempo. As badernas diminuíram em mais de 90%.
Quem criou o hooliganismo foi um jornalista inglês. O termo vem de Patrick Hooligan (1898), um irlandês baderneiro da zona de prostituição de Londres. Tornou-se lendário graças as histórias sobre suas brigas, e as aventuras publicadas em série pelos tablóides sensacionalistas. Uma espécie de “Madame Satã”, o homossexual carioca bom de briga que teve sua vida contada em filme. Há os que dizem que existe um hooligan adormecido em cada um de nós. O coro das arquibancadas é que nos desperta para a violência. Rompe qualquer recalque e desafia qualquer repressão. A tese está mais para conversa de botequim. Os briguentos são minoria. Parece verossímil quando a torcida libera-se em difusa agressividade verbal, ao erigir em ladainha o palavrão. O filósofo e político inglês Francis Bacon (1561-1626 – Novum Organon) chamava esses arroubos de “enganos da razão”, “extravagâncias do intelecto” que podem levar à violência por entusiasmo aos “ídolos da tribo”. É bem uma volta ao primitivismo.
Os sociólogos ingleses designaram de “pânico moral” o fulcro das desordens futebolísticas. Definiram-no como um problema social a exigir uma intervenção urgente. Na raiz do problema encontraram as mudanças estruturais nas diferentes camadas das classes trabalhadoras; a expansão do tempo livre e a crise do mercado de trabalho, especialmente entre os jovens. Assistir jogos fora de casa passou a ser uma necessidade de auto-afirmação para os rapazes. Na verdade eles não estão seduzidos pelo esporte, mas antes pelos acontecimentos extra-campo que o futebol proporciona. É neste contexto que explicam o aparecimento de grupos extremados de jovens, “irrequietos”, “não estruturados”, “provocadores” e “com pouca ou nenhuma perspectiva social”. Vários autores afirmam que a imprensa e a televisão sobrevalorizam o pânico moral ao dar muito espaço às brigas, à repressão, aos estragos e às vítimas. Tudo o que os jovens hooligans querem é estar “on the scene” e adquirir uma identidade, ainda que negativa, na sociedade. A imprensa européia – e a nossa, agora - falava destes jovens, rotulando-os de lunáticos, animais e pedindo soluções para os afastar do futebol, ainda que de forma drástica. O jornalismo começou a criar uma hierarquia nacional de desordeiros futebolísticos. Isto fez por aumentar a luta pelo prestígio entre as diversas torcidas, cada qual atrás do título de “a mais bárbara”.
Houve tempo na Inglaterra que se acusou o neoliberalismo de Margareth Thatcher pela existência dos hooligans. Seria o mesmo que atribuir ao Lula essa baderna extra-estádios, por ter colocado as classes C, D e E no mercado de consumo. Muitos baderneiros presos na Europa eram cidadãos respeitados em suas cidades ou bairros; funcionários idôneos e assíduos; bons pais de família; todos com profissão definida e vida pacata que jamais se ajustaria ao cotidiano de incertezas de estereótipo marginal. Vargas Llosa chegou a afirmar que a violência futebolística é “patrimônio da modernidade e da opulência”. Segue a linha de raciocínio de Freud que diria ser este “o preço da civilização”. O indivíduo jamais se conforma por completo com aquilo que é. O querer ser diferente o leva a certa mutilação do caráter, como a de sair em bando quebrando tudo o que encontra pelo caminho, sem perdoar sequer as velhinhas no lugar errado, na hora errada.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC