Economia & Negócios

Preço de imóveis dispara em Bauru

Por Rodrigo Ferrari | Com Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 6 min

O aumento na oferta de crédito ao consumidor (sobretudo para os integrantes das chamadas classes C e D) tem provocado um verdadeiro alvoroço no mercado imobiliário de Bauru. Áreas antes consideradas pouco viáveis em termos financeiras hoje estão sendo comercializadas a preços astronômicos. Em algumas regiões da cidade, a valorização alcançou 4.900%, em apenas uma década. Para termos de comparação, a inflação dos primeiros 15 anos do Plano Real (ou seja, de 1994 a 2009) foi de 244%.

A disparada dos preços tem sido mais aguda na zona sul da cidade, com a chegada dos condomínios de luxo e dos grandes empreendimentos comerciais. É nas margens do trecho urbano da rodovia Marechal Rondon (SP-300) - mais especificamente, entre a saída para a Bauru-Iacanga (SP-321) e o trevo da Eny - que a pressão especulativa vem sendo sentida com mais intensidade.

O consultor imobiliário e colunista do Jornal da Cidade Roberto Rufino comercializou diversas áreas situadas no trecho em questão. De acordo com ele, no final dos anos 90, o metro quadrado de um terreno localizado nessa região era vendido a R$ 4,00.

Algum tempo depois, o valor do metro quadrado subiu para R$ 19,00. “Atualmente, você não encontra áreas naquele trecho por menos de R$ 150,00 o metro quadrado. Aqueles terrenos que vendi por R$ 4,00, hoje valem, no mínimo, R$ 200,00”, garante. Ou seja, as glebas tiveram incremento de quase 5.000%.

Mas essa oscilação positiva de preços não tem se restringe apenas às áreas nobres da cidade. Em regiões mais afastadas do Centro, os valores dos imóveis também têm estado em franca ascensão.

Em bairros considerados periféricos como a Vila Alto Paraíso ou o Jardim Terra Branca (zona oeste) já é possível se encontrar residências sendo comercializadas a R$ 200 mil. No Parque Santa Edwiges (região noroeste), tido como uma das áreas mais pobres de Bauru, casas estão sendo oferecidas R$ 120 mil.

O corretor imobiliário Eli Parreira de Miranda lembra que, dois anos atrás, era possível encontrar um terreno nos jardins Eugênia ou Ferraz (zona oeste) por aproximadamente R$ 30 mil. “Hoje, você não acha nada nesses bairros por menos de R$ 80 mil”, afirma.

Segundo ele, com os R$ 30 mil citados anteriormente, o consumidor só conseguirá comprar terrenos em bairros como Jardim Petrópolis ou Vânia Maria. “Bauru é a bola da vez em termos de mercado imobiliário”, pensa.

O conselheiro do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci) Giasone Albuquerque Cândia acredita que os empreendimentos não têm acompanhado a evolução da demanda na cidade. “Hoje em dia, existe muito dinheiro disponível para a compra da casa própria, por conta dos incentivos governamentais. Mas, como o mercado não é capaz de atender à crescente procura por imóveis, os preços têm subido de maneira rápida. Atualmente, os valores praticados em Bauru, tanto para venda quanto para aluguel, são superiores ao observado em lugares como São José do Rio Preto, Ribeirão Preto e até Curitiba”, afirma.

Cândia acredita que, na medida em que as empresas passarem a direcionar mais investimentos para a cidade, os valores dos imóveis (para venda e aluguel) deverão se estabilizar. “É a lei do mercado. Se novos empreendimentos imobiliários forem criados em Bauru, poderemos até observar uma queda considerável nos preços, a médio ou longo prazos”, afirma.

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Valorização do setor

assusta os investidores

A valorização dos imóveis comerciais tem afetado inclusive áreas consideradas pouco atraentes pelos investidores. Até algum tempo atrás, os terrenos situados às margens da rodovia Bauru-Iacanga (SP-321) costumavam ser comercializados a R$ 3,00 o metro quadrado. A construção do Aeroporto Moussa Tobias elevou para R$ 25,00, em média, o valor do metro quadrado na área em questão.

No trecho norte da Marechal Rondon (nas imediações do Núcleo Gasparini), os preços ainda são menores dos que praticados nas áreas mais ao sul, mas encontram-se em franca ascensão. “Áreas naquela região já estão sendo vendidas a R$ 80,00, o metro quadrado”, afirma o consultor imobiliário Roberto Rufino.

Ele teme que os altos preços dos terrenos às margens das rodovias (que, pelo Plano Diretor, são destinados à instalação de empreendimentos comerciais ou industriais) possam afastar os empresários interessados investir em Bauru.

“Os empresários que pensam em se instalar na cidade ficam assustados com os valores dos terrenos. Segundo os comentários que ouço, os preços em Bauru são os mais altos entre as localidades existentes em um raio de 200 quilômetros de distância”, afirma.

Para o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Richard Vendramini, os riscos de Bauru afugentar empresas são relativos. “Em empreendimentos de grande porte, o valor do terreno representa representa menos de 7% do total que será investido. Esse montante pode ser compensado com incentivos públicos, como isenção em taxas e impostos, por exemplo”, afirma.

Na opinião dele, a evolução dos preços no mercado imobiliário da cidade são reflexos das leis de mercado. “Se há uma alta nos custos é porque está havendo um aumento na procura”, diz.

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Por causa do custo alto, casal opta por comprar terreno em Piratininga

O que parecia mais difícil, a carta de crédito da Caixa Econômica Federal para comprar a casa própria, a técnica de enfermagem Carla Grasielle Faria conseguiu até com certa facilidade, no ano passado. Achando que seria fácil encontrar um imóvel para comprar em Bauru, ela e o marido Tales Glauco Pereira de Freitas, percorreram imobiliárias e visitaram várias casas e apartamentos na busca de um que ficasse em torno de R$ 80 mil, o valor da carta de crédito. Mas os meses se passavam e, como o casal não achou nenhum imóvel nesta faixa de preço, acabou comprando um terreno no município de Piratininga, onde vão construir uma casa.

“Aqui em Bauru, depois de ver casas e apartamentos e todos serem mais caro que o valor da carta de crédito, começamos a pensar na ideia de comprar um terreno e construir. Mas mesmo assim não dava. Um terreno que gostamos, de 300 metros quadrados, custava R$ 100 mil”, lembra Carla. “Em Piratininga, num condomínio, compramos um terreno de 1 mil metros quadrados por R$ 30 mil”, completa.

No imóvel, o casal pretende construir a casa dos sonhos. “Primeiramente vamos erguer uma edícula. Depois, aos poucos, construiremos o resto da casa”, comenta Carla que já tem até a maquete de sua casa própria. “Não sei o que ocorre em Bauru. Casa, apartamento, terreno, tudo ficou muito caro de repente”, avalia.

Uma casa simples, de núcleo habitacional Granja Cecília, mesmo precisando de reforma, estava à venda no final de ano passado por R$ 80 mil. “Foi aí que vimos que não dava para comprar em Bauru. Por um apartamento igual ao que moramos há alguns anos, no residencial Manoel Lopes, de dois quartos, nos pediram R$ 94 mil!”, lembra ela.

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