Jerusalém - O presidente Lula discursou ontem no Knesset, o Parlamento de Israel, e pediu um Oriente Médio livre de armas nucleares, a exemplo da América Latina. “Brasil é orgulhoso por não haver armas nucleares na América Latina e nós queremos que isto seja um exemplo para outras partes do mundo”, disse Lula.
Israel, apesar de ser membro da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), nunca assinou o tratado de não proliferação nuclear e, suspeita-se, teria um arsenal não declarado de armas nucleares.
O Ocidente acusa ainda o Irã de desenvolver um programa militar de armas nucleares, mas Teerã nega e diz ter apenas fins civis.
Mais cedo, o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, recebeu Lula no Knesset e apelou para que o Brasil “se some à coalizão internacional que se forma contra o Irã”. “Esta coalizão reúne numerosos países que querem impedir o Irã de se dotar de arma nuclear”, disse o premiê israelense.
Conforme Irã avança em seu programa nuclear e rejeita os esforços de negociação com as potências, aumentam os rumores de que Israel prepara um ataque às instalações nucleares iranianas - aos moldes do que fez com a Síria em 2007, apesar de a Síria negar que o alvo atingido fosse um reator nuclear secreto. “Eu acredito que as autoridades iranianas representam valores completamente diferentes dos seus”, continuou Netanyahu, em um recado à aproximação e à defesa brasileira do programa nuclear iraniano. “Eles representam tirania e crueldade, vocês representam abertura e tolerância. Eles honram a morte e vocês celebram a vida. Irã nega o Holocausto, pede a destruição de Israel, está desenvolvendo armas nucleares e apoia organizações terroristas”, disse Netanyahu, citado pelo jornal “Haaretz”.
Paz
Lula passou o dia em eventos com autoridades de Israel e pediu reiteradamente maiores esforços de Tel Aviv pela negociação de paz com os palestinos.
O presidente citou o Brasil como um exemplo de convivência pacífica. “No Brasil, 10 milhões de árabes vivem em harmonia com milhares de judeus”, disse. “Nós esperamos que isto seja usado como uma metáfora para buscar maior entendimento no Oriente Médio”.
Assim, Lula exortou as duas partes a “superar antagonismos”. “O Estado de Israel deve viver ao lado de um Estado palestino. Deve haver uma coexistência”.
Lula viajou ao Oriente Médio em uma missão de paz, como um possível interlocutor para as negociações.
Segundo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, durante a reunião de Lula com o presidente israelense, Shimon Peres, foi discutida a possível participação do Brasil no processo de paz.
“Valorizou muito o papel do Brasil numa situação de ajudar a promover o diálogo. Peres achou que essa capacidade de fazer amigos com todos pode ser muito útil, mas ainda não era o momento de discutir detalhes”, explicou Amorim.
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Presidente brasileiro não visita túmulo e sofre boicote de ministro
Jerusalém - Inflando incidente que poderia ter passado por uma simples divergência de protocolo, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Liberman, decidiu boicotar a visita do presidente Lula ao país. Segundo a imprensa israelense, o motivo teria sido a recusa brasileira de incluir no programa uma visita ao cemitério militar de Jerusalém, onde Lula depositaria flores no túmulo de Theodor Herzl, pai do sionismo.
O ultranacionalista Liberman quis mostrar ao Brasil que “Israel leva a sério o desprezo a seus protocolos diplomáticos”, segundo o jornal “Haaretz”.
Mas houve mais que isso. A reportagem apurou que nos dias que antecederam a visita, Liberman pediu insistentemente uma audiência com Lula, que foi negada. Isso teria motivado o chanceler israelense a cancelar sua presença no Parlamento e na conversa que Lula teve ontem com o premiê israelense.
Oficialmente, a comitiva brasileira alegou que a ida ao túmulo de Herzl não foi aceita por ter sido incluída somente na última semana, quando a programação da visita de Lula já estava praticamente definida. Mas ficou claro que não havia nenhuma vontade política de atender o pedido de Israel.
Uma resolução da ONU equiparando sionismo a racismo, que tinha o apoio do Brasil, só foi revogada em 1991. Um diplomata brasileiro justificou que “seria um salto grande demais” sair da posição adotada até os anos 90 “para a exaltação” do sionismo.
O Brasil também se sentiu incomodado porque a visita ao túmulo de Herzl não fez parte das visitas recentes de líderes estrangeiros, mesmo os mais simpáticos a Israel, como Silvio Berlusconi (Itália).
Uma diplomata israelense explicou que a visita voltou a fazer parte do protocolo há poucas semanas, depois que o governo decidiu homenagear o aniversário de 150 anos de nascimento do pai do sionismo. O primeiro a seguir o esquema foi o vice-presidente dos EUA, Joe Biden.