Tribuna do Leitor

CARTA AO TIO OSWALDO NO DIA DE SUA PASSAGEM


| Tempo de leitura: 2 min

Querido tio Oswaldo.

Alguém escreveu que cartas têm que ter um tempo de pensar, um tempo de escrever, um tempo de lacrar e enviar. É uma forma de respeito: parei para te escrever. Parei para te enviar esta carta. Só que esta carta, tio, foi escrita apressada, não será lacrada e jamais enviada ela espera. Espera todo o tempo, o tempo todo espera o tempo... O tempo para nos acostumar com sua ausência. Pessoas especiais como o senhor são o fio das nossas vidas – imprescindíveis – deviam viver para sempre.

Alguns o achavam carrancudo, reservado, sem meias palavras, mas isto porque não o conheciam na intimidade. Desconheciam seu coração sensível, sua afeição pela boa música, o apreciador do humor refinado, seu prazer por uma conversa gostosa, inteligente, seu prazer por uma caminhada e pelo seu cigarrinho inseparável que fumava com um sorriso maroto.

Quantas noites estivemos reunidos na casa do vovô e depois da madrinha, saboreando nosso cafezinho e “jogando conversa fora”: ora discutindo os rumos do país que o senhor tanto amou e torceu para dar certo, ora lembrando casos de família ou de política. E o senhor muitas vezes divertia-se com a mamãe lembrando-se de filmes antigos, da velha Bauru, das lembranças das festas no Automóvel Clube, dos amigos perdidos e de tantas outras lembranças que fizeram parte de suas histórias.

O senhor sempre teve paixão pelo seu trabalho e pelo conhecimento, preocupação em minorar o sofrimento das pessoas e sempre amou e preservou sua família. Só que ultimamente, acho que o senhor estava convencido que o seu tempo havia passado, já tinha vivido o suficiente. Seu olhar parece que tinha perdido aquele brilho questionador que o senhor sempre exibiu e que o diferenciava.

Hoje, tio Oswaldo, é um dia triste para nós que tivemos o privilégio de conviver com o senhor. E, evocando nossas raízes, como diria o vovô, eu “pido” todas as bênçãos do céu e da terra para o senhor, tio querido – exemplo de bondade, caráter, dignidade, ética e tantas outras virtudes – por ter sempre me acolhido nas minhas horas difíceis e me ter feito imensamente feliz por ter compartilhado da sua amizade, companhia, inteligência. Por tudo isso lhe sou e serei eternamente grata.

Meu tio predileto parta e não perca nunca, não importa em que mundo esta alma grande, linda, generosa. Já sinto saudades! Obrigada pelo que o senhor foi e significou para mim e para todos da nossa família.

“Onde você vê a morte

Alguém vê o fim

E o outro vê o começo de uma nova etapa” F. Pessoa. Até logo”.

Sei que o senhor estará lá em cima olhando por todos nós. Beijão

Mariângela Garcia de Almeida

Comentários

Comentários