Ontem, único dia do ano em que não são celebradas missas nas igrejas católicas ao redor do mundo, centenas de fiéis bauruenses compareceram à Catedral do Divino Espírito Santo, no Centro, para participar da cerimônia da Paixão e Morte de Cristo.
Às 15h em ponto - horário em que, segundo a tradição cristã, Jesus teria morrido -, o bispo dom Caetano Ferrari deu início à celebração, que consistiu, basicamente, em orações e na leitura de textos do Antigo e do Novo Testamento que faziam menção ao mistério da crucificação de Jesus: trechos dos capítulos 52 e 53 de Isaías, em que o Messias é comparado a um cordeiro a caminho do matadouro ou a uma ovelha diante dos tosquiadores; e um excerto da Epístola aos Hebreus, em que o apóstolo Paulo se refere a Cristo como sumo sacerdote eminente, que atravessou os céus.
Este ano, o Evangelho escolhido pela Igreja para narrar a morte de Jesus foi o de São João, texto conhecido pelo seu caráter profundamente simbólico - cada gesto e palavra narrado pelo apóstolo adquire um ar solene, como se fosse parte de um ritual.
Durante a homilia, dom Caetano também recorreu aos símbolos para explicar as leituras. Chegou a utilizar o tempo chuvoso do início da tarde para ilustrar o estado de espírito dos fiéis no dia santo. “Parece que a própria natureza tenta acompanhar os sentimentos de nossos corações, derramando lágrimas pela morte de Jesus”, disse.
Em seguida, o bispo fez uma comparação entre os dois grandes mistérios da Igreja: o da Santíssima Trindade, segundo o qual, o Deus único se manifesta em três pessoas distintas (o Pai, o Filho e o Espírito Santo); e o da crucificação, em que o Criador vem ao mundo na condição de homem para salvar a humanidade dos pecados.
“De um lado, temos Deus em toda sua glória, enquanto de outro temos Ele como homem, esmagado pelos nossos pecados, suportando todos os sofrimentos possíveis para redimir a humanidade”, refletiu.
De acordo com ele, os cristãos de hoje deveriam “assumir a cruz de Jesus em prol daqueles que sofrem”. “A dor do Senhor ainda é uma realidade no meio de nós. Cristo crucificado se faz presente nos rostos das vítimas da guerra, da violência e da corrupção. Ele se manifesta naqueles que são flagelados pelas drogas e pelos roubos, naqueles que têm fome e nas crianças abandonadas”, afirmou o bispo.
Após a cerimônia, em entrevista ao Jornal da Cidade, dom Caetano disse considerar a guerra o pior flagelo do mundo atual. “É uma situação trágica, em que pessoas matam e morrem de maneira institucional. Quando isso ocorre, é porque o diálogo não surte mais efeito e as partes preferem apelar para o poder armado”, disse.
Dom Caetano também fez uma comparação entre a mensagem de Jesus e a ideologia vigente no mundo atual. “A força de Deus não é a mesma em que as pessoas se fiam. Para os homens, o poder emana das armas, do dinheiro e da política. Já o poder de Deus manifesta-se através do amor incondicional pelos seus filhos”, salientou.
Após a homilia, os fiéis participaram da tradicional “Oração Universal”, rezando na intenção, entre outros, do papa, dos judeus, dos ateus, dos não cristãos e dos políticos. Em seguida, ocorreu a Adoração da Cruz, ponto alto da celebração.
Coberto por um tecido púrpura, o crucifixo foi carregado pelo pároco da catedral, Marcos Pavan. Na medida em que avançava em direção ao altar, o padre ia desnudando partes do “lenho da cruz, de onde pendeu a salvação do mundo”.
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Reverência
Uma enorme fila formou-se no corredor central do templo: eram os fiéis querendo reverenciar Jesus crucificado - e talvez depositar nos pés ensanguentados do Salvador algumas de suas próprias dores e angústias individuais.
Antes de a cerimônia acabar, outras filas se formaram, desta vez para que as pessoas pudessem tomar a comunhão (as hóstias haviam sido consagradas na missa da Quinta-feira Santa). À noite, estava prevista a realização de uma procissão solene nas imediações da catedral, com a imagem do “Senhor Morto”. Mas, em decorrência da chuva, o cortejo teve de ser cancelado. No lugar foi realizada uma via sacra luminosa, nas dependências do próprio templo.
Ontem, ao longo do dia, todas as imagens da catedral permaneceram cobertas por mantos púrpuros, semelhantes ao usados na cerimônia da Adoração da Cruz. Também não havia flor alguma no altar. Foi assim em todas as igrejas católicas do planeta. Segundo dom Caetano, isso ajuda a reforçar a ideia de luto, inerente à data.
Esse ar fúnebre durará até a noite de hoje. Os “aleluias” só voltarão a ser entoados durante a Vigília Pascal, considerada a mais importante festa do calendário litúrgico da Igreja, que celebra ressurreição de Jesus. Na catedral, a cerimônia terá início às 20h.