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Retorno ao Paradiso

Irineu Azevedo Bastos
| Tempo de leitura: 2 min

Reeditado em vídeo, revi outro dia o excepcional filme de Giuseppe Tornatore “Cinema Paradiso”. Conforme o filme se desenrolava, mais uma vez retornei ao meu passado. E lembrei-me da fala de um amigo ilustre, Omar Barreto Campos, que um dia, defronte ao Bosque da Comunidade, disse-me: - Quando atingimos a velhice a memória próxima nos falha, mas a antiga vem sempre às nossas lembranças. E a memória antiga aflorou à minha mente enquanto eu assistia a película. A censura do pároco local, soando a sineta, assinalava para Alfredo, operador na sala de projeção, as cenas que seriam censuradas: todos os beijos e um ou outro abraço mais ousado eram tesourados sem piedade.

E Totó, o garoto personagem central da história, em filmes de aventuras, bang-bang ou heróis da selva, juntamente com outros garotos, eram recebidos com o som estridente dos sapatos da meninada espocando no assoalho em sinal de aplauso pelas cenas voluntariosas que assistiam, tal como eu fazia com outros meninos, na sala do Cine São Raphael, na Vila Falcão, nos vesperais de outrora. Com o tempo a censura eclesiástica foi relaxando e os beijos começaram a projetar-se na tela, sob os olhos ávidos dos espectadores daquela sala comunitária. Onde todos se conheciam e jogavam conversa fora enquanto aguardavam o início da sessão. Depois a permissividade aumentou e Brigite Bardot passou a mostrar seus dotes físicos para os atônitos cinéfilos do sexo masculino. Lembrei-me então quando tinha 15 ou 16 anos e não pude assistir entrando pela porta da frente “E Deus criou a mulher”. Mas nos fundos do cinema havia o quintal da casa do Grego. Ele, eu e alguns outros amigos escalamos o muro, pé ante pé, escapando da vigilância do "lanterninha" Brotero, nos acomodamos no espaço existente no fundo da tela e despreocupados com a legenda do filme que nos aparecia ao contrário, assistíamos o desempenho arrojado da atriz. E um alento erótico acompanhou-nos durante a projeção.

Aquele cinema da vila era nosso Paradiso. No filme de Tornatore o clímax da história desenvolve após a morte de Alfredo e do rolo de filme que ele deixou para Totó adulto, agora cineasta famoso e rico. Sozinho na sala ele testemunha, enquanto solta algumas lágrimas, que o presente nada mais é do que uma colagem feita com paciência, das cenas censuradas pelo vigário da aldeia, cujos moradores, atualmente, no predomínio da televisão, reunidos na praça um dia, assistem à demolição de tantas histórias, dinamitado e ruindo a seus pés.

O autor, Irineu Azevedo Bastos, é membro da ABLetras

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