Cultura

Música resgata seus amigos

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 5 min

Foram quase duas mil audições do Clube Amigos da Boa Música, fundado em 1943 e que recebia semanalmente, sempre às segundas-feiras, pessoas interessadas em ouvir, conhecer e aprender mais sobre música clássica. Na sala da casa de seu idealizador, Hélcio Pupo Ribeiro, é que os encontros foram realizados por quase 60 anos. Neste mês, oito anos após a morte do professor de história da arte e, acima de tudo, um apaixonado por música, a iniciativa será retomada.

Na era do blu-ray, o Clube Amigos da Boa Música renasce fazendo sua audição inaugural na próxima sexta-feira, às 20h. A exemplo do que era feito pelo professor Hélcio, os encontros serão abertos a toda comunidade, com entrada gratuita. “A diferença é que, inicialmente, eles serão mensais e não semanais. Com exceção da primeira audição, todas as outras serão realizadas sempre na última quinta-feira de cada mês”, explica Cláudia Ribeiro Siscar, 44 anos, sobrinha de um dos antigos integrantes do clube e a responsável pela retomada dos encontros.

“Admirava o trabalho do professor Hélcio e sempre quis dar continuidade. Passei um longo momento amadurecendo a ideia e agora acho que é a hora certa para colocá-la em prática”, explica. Amante do som, imagem e tecnologia, como define-se, a empresária dá sequência à paixão do professor Hélcio - compartilhar o melhor da música - só que agora em alta definição.

“Vou pegar o material que eu tenho em DVD e em blu-ray, tecnologia que na época o professor não chegou a ter acesso. Assim como ele, farei uma apresentação rápida dos programas, apresentando ao público mais informações sobre o compositor, seus trabalhos mais importantes, para contextualizar a exibição”, afirma. O blu-ray é um formato de disco óptico da nova geração de 12 centímetros de diâmetro (igual ao CD e DVD) para vídeo de alta definição e armazenamento de dados de alta densidade.

Quanto ao conteúdo das audições, Cláudia manterá os programas pautados na música erudita. “Vamos fazer exibições bem clássicas, com obras na maneira em que foram concebidas e gravadas na sua forma original; mas queremos fazer também a exibição de óperas e concertos com uma leitura atualizada”, afirma.

“Existem muitos novos músicos reinterpretando os grandes clássicos muito bem e esse é um aspecto muito interessante: ver como a arte evolui ao longo do tempo”, completa a empresária que contará com a ajuda da pianista e professora da Universidade do Sagrado Coração (USC) Rosa Tolón e de Valdir Lopes de Figueiredo, antigo frequentador do clube e responsável por uma rádio virtual dedicada à música clássica (www.radioclassica.com.br).

“A intenção é criar um espaço para pessoas leigas que gostam de música mas não têm onde conhecer mais. Serão momentos não apenas para escutar, mas para se informar, aprender sobre a música erudita”, comenta Rosa Tolón. As audições serão realizadas em um auditório localizado na avenida Duque de Caxias, 16-25, para um público máximo de 40 pessoas.

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‘Música clássica não é bicho-de-sete-cabeças’, dizia Hélcio

A paixão pela música, que marcou a vida de Hélcio Pupo Ribeiro, começou com sua atividade comercial. Ele manteve por décadas uma loja de discos herdada do pai que, entre os vários gêneros, dedicava atenção especial à música clássica e erudita. As reuniões em sua casa começaram de forma despretensiosa, como uma oportunidade de reunir amigos e outros amantes da música como ele para apreciar, estudar e debater os grandes nomes do gênero.

“As reuniões tinham um clima muito gostoso, com pessoas que se tornaram amigos de verdade e são até hoje; todos trocando ideias, ouvindo musica”, lembra dona Irma Maria do Rosário, viúva do professor. “Hélcio tinha a virtude de capitar o gosto de cada um; além de um amante incondicional da arte, ele procurava nas audições agradar todos em especial, fazendo programas diversificados”, lembra. Sobre o retorno do clube, dona Irma, que acabou de completar 83 anos, diz estar feliz e, assim como quando eram em sua casa, ela pretende participar dos encontros. “Fiquei feliz por mim, que adoro música, e por ele, especialmente, porque ele merece ser lembrado como um homem que batalhou pela cultura”.

Com um acervo de mais de mil CDs, 800 LPs e 1800 fitas cassetes, Hélcio dividia sua paixão com o público com o intuito de promover o entendimento e o gosto pela arte. Para ele, a apreciação da música clássica era fruto do hábito de ouvi-la. “Quer gostar de música clássica? Então não ouça música clássica”. Ele explicava. “Basta pôr o disco para rodar - ela age no ouvinte. Um dia, o gosto surge. É claro que é preciso ter sensibilidade, mas o ambiente ajuda a criar a sensibilidade. Música clássica não é bicho-de-sete-cabeças, é questão de costume e conhecimento.”

Responsável pelo programa “A Música no Tempo”, transmitido pela Rádio Unesp há 10 anos, e pela rádio virtual “Radio Clássica”, Valdir Lopes de Figueiredo pode ser considerado uma espécie de sucessor de Hélcio na divulgação da música erudita. Frequentador assíduo do antigo clube, Figueiredo diz ter sido o professor o responsável por lhe ensinar o valor da música brasileira. “Em toda audição ele, obrigatoriamente, incluía música de um compositor brasileiro e isso me marcou muito. Ele me despertou para isso, a importância de valorizar o que é nosso”.

O professor Hélcio morreu no dia primeiro de setembro de 2002, de falência múltipla dos órgãos, aos 87 anos.

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Audição inaugural

Feita em homenagem ao seu fundador, o professor Hélcio Pupo Ribeiro, a audição inaugural do Clube Amigos da Boa Música traz em seu programa “O Barbeiro de Sevilha” (Giacomo Puccini) na abertura, seguida de “Chitarra Romana” (Di Lazaro/Cherubibi), “Vivace” (Johann S. Bach), “Granada” (Angela Gheorghiu), “Gabriel’s Oboe” (Morricone), “Czardas” (Monti), “Amor, Vida de Mi Vida” e “Non Te Scondar di Me” (De Curtis/Furno).

• Serviço

Audição inaugural do Clube Amigos da Boa Música nesta sexta-feira, às 20h, na avenida Duque de Caxias, 16-25. Capacidade máxima de 40 lugares. Entrada gratuita. Mais informações pelo telefone (14) 3227-1010.

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