Regional

P. Alves vai usar planta para combater o mosquito da dengue

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Presidente Alves -Um projeto desenvolvido pela prefeitura de Presidente Alves (56 quilômetros de Bauru) distribuiu, no dia do Meio Ambiente, cerca de dois mil sachês contendo aproximadamente 50 sementes de uma planta chamada crotalária juncea. A ideia é atrair libélulas que possam eliminar as larvas do mosquito transmissor da dengue. Outras cidades do Interior paulista também adotaram a medida. O professor-doutor em biologia da Faculdade Anhanguera, João Carrara, alerta para o desequilíbrio ecológico.

Batizado de projeto “Plante uma crotalária”, ele foi idealizado para evitar a proliferação do mosquito Aedes aegypti em sua fase larval, explica o diretor ambiental do município, Fábio Frizze Sclauzer. “Produzimos panfletos explicativos que acompanharam os sachês. Antes, preparamos cerca de 25 crianças, com palestras sobre o assunto, para que elas fizessem a distribuição junto à população.”

Nos dias 31 de maio e 1 junho, em comemoração ao Dia do Meio Ambiente, os moradores de Presidente Alves e do distrito de São Luiz do Guaricanga receberam o panfleto e os sachês.

“A flor da crotalária atrai a libélula que deposita seus ovos em água parada e limpa, como o mosquito Aedes. A larva da libélula (predador natural do mosquito) se alimenta de outras larvas, inclusive da dos mosquitos, tanto do Aedes como do pernilongo comum.”

Para Fábio Sclauzer, a ‘contabilidade’ é simples. “Se eu plantar a crotalária onde tem um foco, a planta vai crescer e atrair a libélula que vai colocar sua larva em água limpa e eliminar a larva do Aedes. Por isso, a prefeitura semeou a crotalária próximo de alguns focos, cerca de cinco, como na entrada da cidade, onde normalmente, após as chuvas formam poças de água.”

Os moradores receberam as sementes para serem plantadas porque há focos de mosquitos em propriedades particulares. “O panfleto continha informações de como plantar, para que serve e o objetivo da plantação no município.”

Projeto semelhante está sendo desenvolvido na cidade de São José do Rio Preto, porém, ainda não há resultados que comprovem a eficácia do plantio. Fábio Sclauzer confessa que é uma prevenção, embora ele ainda não tenha lido artigos de pesquisadores que comprovem a eficácia do uso da planta.

O responsável ambiental ressalta que mesmo depois da distribuição feita pelos alunos, ele e o responsável pela vigilância sanitária do município continuaram o plantio em locais estratégicos. “Os moradores também plantaram e, estão esperando com ansiedade, o crescimento da planta. No período de quatro a seis dias, ela germina.”

____________________

Outros usos

A crotalária juncea, segundo o diretor ambiental de Presidente Alves, Fábio Frizze Sclauzer, serve como adubação verde. “Uma cobertura do solo. Ela é pouco exigente na questão de nutrientes. Tem grande potencial de fixação biológica do nitrogênio. É uma espécie de crescimento rápido, de 120 a 150 dias, de ciclo vegetativo. É uma cultura anual usada como rotação de diversas culturas, porque enriquece o solo.”

____________________

Biólogo alerta para desequilíbrio

O doutor em biologia da Faculdade Anhanguera, João Carrara, alerta para o desequilíbrio ecológico que o plantio desenfreado da crotalária pode causar. “A crotalária é originária da Índia e se adaptou ao Brasil, especialmente por causa da temperatura, ela é típica de clima tropical. Tem que tomar muito cuidado com a remoção e introdução da espécie num local. A mudança do habitat natural pode prejudicar o equilíbrio ecológico.”

No Brasil, segundo o professor, a espécie se adaptou bem à região Amazônica. “Aqui onde tem predomínio de serrado é meio complicado. Pode dar certo, mas pode desequilibrar o meio ambiente, porque a libélula é predadora. Essa flor da crotalária pode atrair libélulas e a elas precisam da água limpa. A questão da água na nossa região e o tipo de solo não são os mesmos. A libélula é predadora tanto na fase larval quanto na fase adulta e vai se alimentar de larvas que podem ser do Aedes, faz parte da dieta dela em florestas. Tem que lembrar que o transmissor da dengue vive na cidade, ambiente urbano e não em mata, onde existem outras espécies diferentes.”

Carrara frisa que a libélula tem potencial para comer as larvas do Aedes, mas não há comprovação de que ela coma. “Se vai ser a predileção dela. A gente não sabe até que ponto a libélula vai atrapalhar o equilíbrio ecológico que já existe na região. Existe toda uma controvérsia,” diz o especialista.

Para ele, é bom lembrar que a crotalária é uma leguminosa, herbácea de caule suculento própria da região tropical, de locais úmidos. Só consegue se desenvolver se tiver água limpa porque a larva da libélula pode precisar de até cinco anos de vida aquática. Vive de um a dois meses na fase adulta.

“Se não tiver água é complicado. Na nossa região tem que estar próximo do curso de água para funcionar. Existem no mundo aproximadamente cinco mil espécie de libélula. No País há aproximadamente 1.200 espécies conhecidas e dessas, cinco já estão em extinção.”

Comentários

Comentários