São Luís - Em um casebre de palha sem água e luz - em um povoado isolado do Interior do Maranhão - o lavrador José Agostinho Bispo Pereira, 54 anos, foi preso em flagrante sob a acusação de abusar sexualmente da filha por mais de 16 anos. As agressões, diz a polícia, começaram quando a menina tinha 12 anos.
Os dois tiveram sete filhos, com idades entre 2 meses e 12 anos, que viviam também sob ameaça para não fugir do local - uma ilha na cidade de Pinheiro (a 340 km de São Luís). O vizinho mais próximo da família fica a cerca de um quilômetro.
De acordo com Adriana Meirelles, da Delegacia da Mulher de São Luís, um exame mostrou que o lavrador, preso anteontem, recentemente também abusou da filha-neta de 5 anos.
O lavrador teve oito filhos-netos, sete com Sandra, hoje com 29 anos, e um com outra filha, que fugiu meses atrás. A mulher dele, mãe de Sandra, abandonou a família quando ela era pequena.
Quando os policiais chegaram à casa, duas crianças se assustaram e fugiram. A PM fará uma nova busca. “Encontramos uma situação bem delicada nesse caso. Foi difícil convencer essas crianças e a moça a entrar no carro, por exemplo. Eles nunca tinham saído de lá. Quase não falam, são muito traumatizadas”, diz a delegada.
Existe ainda uma oitava criança que a polícia não conseguiu localizar. Há 40 dias, Sandra deu à luz um bebê que foi doado a um casal da região. Ela afirma não saber o paradeiro da família. Pereira confessou, segundo a polícia, o abuso da filha mais velha, mas negou que tivesse estuprado a menina de 5 anos. A cidade de Pinheiro não tem Defensoria Pública e, por enquanto, ele não tem advogado.
Há dois anos, um caso semelhante teve repercussão em todo mundo. O engenheiro aposentado Josef Fritzl foi condenado por estuprar e prender a filha no porão de sua casa, em Amstetten, na Áustria, por 24 anos. Eles também tiveram sete filhos.
Após uma denúncia anônima, a Polícia Civil chegou à casa de Pereira, no povoado Experimento. Sem acesso por terra, os policiais precisaram usar canoas. “O casebre fica na beira do rio. De lá, não se vê nada”, contou a delegada. Segundo ela, a casa não tinha mobília ou utensílios básicos. “Tudo era paupérrimo. As roupas ficavam jogadas. Não tinha sequer um armário.”
De acordo com a polícia, alguns vizinhos sabiam da situação, mas não tinham coragem de comentar.
Como a cidade não tem abrigo, a mãe e as crianças estão na sede do Conselho Tutelar de Pinheiro. Eles já receberam atendimento médico e devem ser avaliados psicologicamente.
O lavrador deve responder por cárcere privado e estupro de vulnerável, além de abandono material, abandono intelectual e maus-tratos, pelas condições em que se encontravam a jovem e as crianças.