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Literatura decifra economia a ‘leigos’

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

O que o aumento no preço de um anel de noivado, numa joalheria em qualquer cidade, tem a ver com a publicação de uma charge ofensiva a Maomé num jornal dinamarquês? Tudo, afirmam os economistas Carlos Eduardo Soares Gonçalves e Bernardo Guimarães, ambos doutores, respectivamente, pela Universidade de São Paulo e Yale (EUA). Autores do livro “Economia sem truques” (editora Elsevier, 224 páginas), eles relacionam diversas situações, em variadas épocas e locais do mundo, às então cifradas teorias macroeconômicas e indicam como cada circunstância, por menor que pareça, influencia na queda ou elevação de preços, a chamada bola de neve.

Sobre a relação entre a charge e a elevação do valor de um simples anel numa joalheria, explicam os autores em trecho da obra, o desconforto diplomático aumenta a incerteza geopolítica no planeta, causando um aumento repentino no preço do ouro, já que o mineral é considerado um porto seguro no campo dos investimentos em tempos de incertezas. Esse é apenas um dos exemplos evidenciados pelos autores, que discorrem de forma simples sobre temas complexos, tornando-os acessíveis para leigos.

Explicações sobre o motivo de haver tantas casas estreitas em Hanói (Capital do Vietnã), reflexos catastróficos na rotina de um país miserável do sudeste asiático com a proibição de trabalho infantil na indústria têxtil, e até mesmo a piora na distribuição de renda com o cancelamento da cobrança de estacionamento nos shopping centers também ilustram as explicações sobre como cada circunstância tem peso na cadeia financeira.

Carlos Eduardo Soares Gonçalves, um dos autores, concorda que os termos técnicos muitas vezes afugentam as pessoas que até mesmo se interessam em conhecer o organograma da economia.

“Procuramos explicar com exemplos do mundo real”, sintetiza o autor, detalhando ainda que o livro busca desvendar o arcabouço básico do universo econômico ao explicar também truques governamentais milagrosos, chamados por eles de “economágica”. “Fugimos dos temas macroeconômicos e nos apoiamos sobre as análises do custo-benefício”, explica.

Princípios básicos

E é com a mesma premissa da praticidade que estudantes a partir dos 11 anos do Colégio Uniesp/Fênix, em Bauru são introduzidos ao universo dos negócios. Orientados pelo professor Sérgio Luiz Silva de Souza, eles aprendem desde princípios básicos do dinheiro até diferenças conceituais entre indústrias, empresas ou franquias.

A necessidade de ensinar economia no banco da escola, justifica o professor, se dá pela vida em si. “O orçamento está em nosso dia a dia. Quanto mais cedo se tem a noção de dinheiro, melhor a pessoa vai cuidar de sua vida financeira.”

Quem também apoia a educação financeira como fator primordial na formação de cidadãos com maior racionalidade econômica é a economista Salete Lara, professora da Instituição Toledo de Ensino (ITE).

Os conceitos transmitidos desde cedo poderiam suprimir uma certa tendência natural do brasileiro em ser, segundo ela, “mão aberta”. “O brasileiro por natureza é assim. Trazemos em nosso “DNA” a chamada demanda reprimida. Sempre tivemos nossa renda controlada pelo governo, fazendo com que fosse insuficiente para adquirirmos tudo o que desejamos e no momento em que queremos”, explica. “Portanto, se tivermos oportunidade, gastamos sem pensar nas consequências posteriores”, relaciona Salete, ao concordar também com a sisudez dos índices econômicos.

Segundo ela, a complexidade macroeconômica afugenta mesmo as pessoas. “Hoje em dia muitos economistas já informam a população de forma mais simples”, observa. “Contudo, ainda existe um certo ‘preconceito matemático’ sobre a economia, que não é ciência exata, pertence à área de humanas, como ciência social aplicada”, esclarece.

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Desde cedo

Para saberem desde cedo o que é o dinheiro e a importância de como utilizá-lo com sabedoria, crianças do Centro Educacional Infantil Santo Antônio (Ceisa), no Distrito Industrial de Bauru, são incentivadas a participar de um projeto no qual, além de ganharem cédulas fictícias de acordo com cada atividade em aula, também podem gastá-las.

Recentemente, explica a orientadora pedagógica Andreza Ribeiro Dória Vieira, que participa da orientação das crianças no centro educacional, os pequenos alunos puderam trocar as notas por prendas da festa junina realizada na instituição, que recebe grande número de crianças moradoras de bairros carentes, como o Ferradura Mirim. “Semanalmente há o acerto de contas, de acordo com a realização das tarefas”, explica a orientadora.

Com a iniciativa, a orientadora pedagógica acredita que as crianças poderão no futuro, como adultas, colher bons resultados no campo da administração das próprias economias.

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