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Pais ‘avançados’ enfrentam barreiras

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 7 min

Os pais estão cada vez mais atuantes, carinhosos e participativos. Vê-los trocando fraldas, dando banho, mamadeira e fazendo os filhos dormir não é mais uma miragem. Da mesma forma como não é coisa do outro mundo ver pais passeando com filhos pequenos sem a companhia da mãe, com aquelas bolsas de bebê a tiracolo.

Foi uma mudança drástica em tão pouco tempo que o mundo não conseguiu acompanhar. Hoje, esses pais “avançados”, como define o psiquiatra Içami Tiba, especialista referência em educação familiar, enfrentam problemas estruturais em uma sociedade que se acostumou com a figura do pai provedor (aquele que trabalha fora) e da mãe educadora (aquela que fica com os filhos).

O pai que sai sozinho com os filhos pequenos tem de estar preparado para passar por alguns constrangimentos, dependendo o local onde está. Se for preciso trocar a fralda ou a roupa do filho é bem provável que terá de fazer isso dentro do banheiro masculino sem nenhum suporte para essa operação de guerra.

Quando a companhia do pai é uma filha, o constrangimento é ainda maior. O que fazer quando ela pede para ir ao banheiro e ainda não está em idade de fazer isso sozinha? Levamos a menina para dentro do banheiro masculino ou pedimos para alguém vigiar a porta do banheiro feminino enquanto você está lá dentro com a filha?

Ainda são poucos os lugares de grande concentração de pessoas em Bauru que são tão “avançados” como os pais citados pelo psiquiatra Içami Tiba. Não é raro ouvir de funcionários dos estabelecimentos que existe um pequeno fraldário no local, mas ele está dentro do banheiro feminino. É uma amostra inequívoca de que a figura do pai com o filho pequeno ou com a filha foi totalmente descartada desde a concepção do projeto.

Entre os poucos lugares que existem em Bauru que oferecem suporte aos pais modernos e “avançados” estão o Alameda Quality Center, Sesc, Bauru Shopping Center, Supermercado Tauste e três lojas da rede Confiança de Supermercados. Eles construíram um espaço que fica fora dos banheiros femininos e masculinos e voltados especificamente para os pais com filhos pequenos.

Os dois que merecem maior destaque são os do Alameda e do Shopping. Este último tem micro-ondas, fraldas descartáveis, cadeirinha de bebê, poltrona para amamentação, além de uma decoração toda voltada para o público infantil, com pequenos quadros nas paredes. O fraldário do shopping fica ao lado da praça de alimentação.

No Alameda, há inclusive dois cercadinhos para colocar as crianças e vasos sanitários apropriados para os pequenos fazerem suas necessidades fisiológicas sem precisar que os pais fiquem segurando-os para que não caiam fora nem dentro do vaso.

De acordo com a diretora do Alameda, Marcela Constantino, durante o planejamento da obra foi pensado em todos os detalhes que pudessem oferecer conforto aos clientes. “O banheiro da família é um serviço diferenciado que tem dado um retorno positivo”, afirma.

O contador Domingos Tonon, 42 anos, sentiu na pele, semana passada, essa dificuldade. Morador de Garça, veio passar o dia em Bauru. Quando precisou de um lugar adequado para fazer a mamadeira da filha Mariana, de apenas 2 meses, não encontrou no supermercado onde estava, que, por sinal, é o maior da cidade e da região. A mamadeira teve de ser preparada dentro do banheiro, que não é exatamente o melhor lugar para isso. Ele só encontrou um fraldário quando passou pelo shopping.

O delegado Luiz Cláudio Massa sempre teve o costume de passear com as filhas. Hoje, elas estão grandes. A mais nova, Sofia, tem 9 anos e ainda passeia com o pai. Massa lembra que por diversas vezes teve de trocar as meninas dentro do carro porque o lugar em que estavam não oferecia o mínimo suporte para os clientes com filhos pequenos.

Segundo ele, era comum vê-lo com bolsa de bebê pendurada no ombro com todos os apetrechos necessários para eventuais trocas de fraldas. Como não havia locais apropriados, a bolsa vivia sempre abarrotada.

Para o psicólogo Ulisses Herrera Chaves, terapeuta de casal e família, a mudança no perfil dos pais é algo irreversível. Portanto, a sociedade e os estabelecimentos comerciais e de serviços terão de se adequar a essa transformação.

Cuidar de criança ainda é uma novidade para o pai

O homem passou a ter consciência da sua função de pai há “apenas” 12 mil anos, segundo o psiquiatra e educador Içami Tiba, um especialista em educação familiar. Só para fazer uma comparação do quanto isso é “pouco”, ele lembra que a mulher desde que começou a ficar em pé reconhece seus filhos e cuida deles.

As mudanças vinham ocorrendo lentamente ao longo dos séculos, até que nos últimos anos houve uma revolução. “Em apenas uma geração, aquele pai que era jurássico, paciência curta, voz grossa e mão pesada virou um beijoqueiro, trocador de fraldas, passou a acordar de noite para ver se o bebê está respirando e a passear com meninas pequenas com fraldas”, relata.

Içami Tiba comenta que, na geração passada, os homens estavam indo para a maternidade e desmaiando na sala de parto. “Agora, ele não desmaia mais. Quando a filha chora, ao invés de entregar para a mãe, ele tenta apaziguar”, compara.

Segundo ele, essa mudança ocorreu dentro de um prazo de aproximadamente 50 anos. “Cuidar de criança é uma novidade para os homens”, afirma. No momento, o que ele classifica de “pais avançados” entram na sala de parto sem grandes aflições, preparam a mamadeira, lavam as mãos antes de pegar o nenê, não têm medo de pegar o filho no colo.

“Os homens ainda estão ‘trogloditando’ com os filhos. A maioria está em passos lentos de mudanças. Ainda vai levar um bom tempo até que seja incorporado na cabeça das pessoas que em banheiro de homens também tem de ter trocador”, frisa.

Para o psiquiatra e autor de vários livros sobre educação familiar, as coisas estão mudando, mas não na velocidade que estão os “avançados”. Segundo ele, é como um trem cumprido. Enquanto os ocupantes de um extremo estão preocupados com a estética, na outra ponta ainda existe um grupo que não gosta de fazer a barba porque manter os pelos na face é sinal de masculinidade, é coisa de macho.

Na opinião de Içami Tiba, as mudanças ocorrerão com mais intensidade um pouco mais para frente, quando as mulheres passarem a ocupar a maioria dos postos de comando, que atualmente estão nas mãos dos homens. Segundo o psiquiatra, as mulheres são mais atentas a esse tipo de mudança, que envolve família.

Papéis invertidos

A figura do homem como provedor da família ainda é predominante na sociedade. Mas um modelo novo de pai começa a emergir, segundo o psicólogo Ulisses Herrera Chaves, terapeuta de casal e família. De acordo com ele, é um homem que foi educado nos moldes tradicionais, mas com a ida da mulher para o mercado de trabalho está assumindo papéis domésticos que antes não tinha.

“Por força das circunstâncias, o pai está incorporando à sua rotina coisas que não fazia antes. Ele está assumindo o papel de mãe também”, explica o psicólogo. Segundo ele, é uma mudança forçada, mas os homens percebem que a novidade traz em si algumas vantagens, como uma maior intimidade com os filhos, um estreitamento da relação. No fim das contas, a obrigação se transforma em prazer.

Ulisses afirma que nunca houve uma mudança tão radical dentro das famílias. De acordo com ele, as mulheres não estão saindo de casa apenas para trabalhar, mas para seguir carreira. E isso tem abalado um outro aspecto histórico e cultural da sociedade, o do homem ganhar mais que a mulher.

“Por muito tempo, isso deu status para o homem dentro da família. Agora é diferente. As mulheres querem que eles sejam mais participativos, mais afetivos, porque elas não dependem tanto deles como antigamente. Ela não se sujeita mais”, compara.

Por conta dessa mudança em um prazo muito curto, o psicólogo comenta que o “homem emergente” ainda se sente perdido com esse novo momento. “O aprendizado está meio que no ensaio e erro. Eles estão entrando num universo que não estavam acostumados”, diz.

Ulisses lembra que em algumas escolas da Europa as crianças aprendem a executar trabalhos domésticos, como arrumar uma cama e usar um fogão. “Saber essas coisas evita uma série de problemas no futuro”, afirma. Segundo ele, são muitas as desavenças entre os casais por questões domésticas, como cuidar da casa e dos filhos, por exemplo.

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