Tribuna do Leitor

Vendendo a família dos outros


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Nas últimas eleições municipais, embora o candidato em que votei para vereador não tenha sido eleito, fiquei muito feliz com o resultado. Uma renovação quase geral da câmara legislativa com gente nova, novos pensamentos, novo ânimo. Principalmente uma nova esperança de que as coisas iriam mudar em nossa cidade.

Mas pelo visto, como diz o ditado, mudaram-se apenas as moscas... Que decepção assistir à sessão da última segunda-feira. O assunto em pauta apresentado pelo vereador Roque Ferreira ser derrotado de forma tão absurda foi algo que me deixou (e muitos outros que conheço) revoltados.

Gostaria de saber quem respondeu à pesquisa em cujo resultado muitos vereadores justificaram seus votos. Todos os comerciários que eu conheço se posicionam contra a abertura das lojas aos domingos. Até mesmo os proprietários de pequenas lojas, cujo trabalho é realizado por familiares, são contra a abertura nesse dia.

Uma proposta que buscava não só proteger os comerciários de uma imposição escravagista ao trabalho não remunerado adequadamente, como alguns vereadores mesmo afirmaram, mas principalmente dar a oportunidade de resgatar pelo menos um pouco às nossas famílias já tão dilaceradas pelo consumismo imposto pelo mundo capitalista.

Lembro com saudade e alegria da ansiedade, quando criança, da espera pelo final de semana, momento em que meu pai estaria em casa e poderíamos passar um dia inteiro juntos. Quanta coisa aprendi nestes curtos espaços de tempo de 24 horas. Profissão, conhecimento técnico, amor à terra, às raízes caipiras, mas principalmente valores como a importância da família, da honestidade, da moral, da cidadania e também do trabalho digno e fonte de sustento para toda nossa família. Aprendi que acima de tudo o homem tem que ter caráter e ser honesto consigo mesmo honrando seus ideais e sua palavra.

Que triste ver vereadores dizendo “O projeto é pertinente, os comerciários estão indefesos, os bancos de horas não são pagos, os empresários exploram os funcionários, se o empregado reclamar é despedido, mas o meu voto é não”. Que incoerência é esta?

Vereadores dizendo que devem legislar pela cidade e não por determinada classe ou minoria. Concordo, mas pra quem vão pedir apoio e votos antes das eleições? Quem promete defender e representar na câmara legislativa? A quem são dirigidas as promessas de campanha?

Hoje vemos tantos problemas na nossa cidade com relação à delinquência e riscos sociais que atacam nossas crianças e adolescentes que poderiam ser amenizados ou mesmo evitados se os pais e mães pudessem estar mais presentes em suas casas, em companhia de seus filhos.

O nosso setor comercial é grandioso e traz sim muito progresso e desenvolvimento para nossa cidade. Cria e mantém milhares de empregos tão necessários. Mas a que custo? Quem lucra com isso? Os empregados e suas famílias com certeza não!

Os pais não conseguem educar seus filhos. Não tem mais tempo pra isso. Se o feriado é na sexta-feira, tem-se que trabalhar no domingo. Não existe para o comércio feriados prolongados. Se o feriado é de confraternização, como Natal ou Ano Novo, tem-se que trabalhar até a hora da ceia. Roubam dos pais e mães de família o direito de passearem ou viajarem com seus filhos.

E estes, os filhos, cada vez mais abandonados. Se não temos creches nas férias, muito menos nos finais de semana. Quem cuida de nossas crianças? A rua?

Essa degradação da família respinga em toda sociedade. Por isso temos que discutir os altos índices de evasão escolar, toque de recolher, depressão, estresse, violência doméstica, maus tratos a crianças e adolescentes, grande quantidade de pais se separando, famílias destruídas e tantos outros problemas da sociedade.

É preciso legislar em favor da família. Domingo é o dia da família. É o dia do Senhor. Precisamos resgatar a importância desse dia. Lembremos a Campanha da Fraternidade desse ano: Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro.

A família pode não ser a solução para todos os problemas sociais, mas é, com certeza, uma vacina eficaz para muitos males. Senhores vereadores, senhores empresários, por favor, não vendam nossas famílias por alguns trocados. Lembrem-se de quando eram crianças, dos momentos que passaram com a família reunida.

José Luiz Prata

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