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O dia em que Guevara passou por Bauru

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Che Guevara esteve em Bauru em 1966, em plena ditadura militar, na sua travessia para a Bolívia. Cumpria seu destino de guerrilheiro. Provas nunca foram apresentadas, e nem poderiam. Sua missão era altamente secreta e tinha como objetivo deflagrar a revolução do povo no Cone Sul. Há os que garantem que com ele tiveram um dedo de prosa na casa do companheiro Bittar, antes dele embarcar no trem da Noroeste. Arcôncio chegou a lhe recomendar o Filé à Camões – aquele de um (olho) ovo só – como a melhor pedida no vagão-restaurante do Cláudio Amantini. O líder cubano chegou a Bauru pela Expresso de Prata, de terno, gravata, óculos de aros grossos, sem barba e com os cabelos tingidos com mechas esbranquiçadas. Mais parecia um burguês de meia-idade capaz de defender a abertura do comércio aos domingos e feriados. Eis a história pela primeira vez contada nos seus detalhes.

Guevara desembarcou na Praça Machado de Mello onde, de pé, maleta entre as pernas esperou seu contato aparecer. E nada dele vir. Já lhe haviam advertido na reunião preparatória em Cuba que o companheiro Pedroso costumava se atrasar. Guevara, preocupado, acendeu um Cohiba – lo mejor puro del mundo – com o anel trocado pelo da Suerdieck. Disfarçava o charuto, mas não a preocupação estampada no rosto. Nisso um homem olha para ele e diz: “O que você está fazendo aqui, Guevara?!” Era o Vilsinho, barbeiro de incrível vocação para saber das coisas. Rapidamente Guevara tenta achar uma saída, mas mal pode balbuciar uma negativa: “Mi nombre no es Guevara”. Vilsinho corta: “Que cheiro bom, é charuto cubano, né? Vou querer um.” Guevara não pode correr, pois irá atrair a atenção dos guardas do Posto Policial. “Isso é que é charuto e não os matarratos que vendem por aqui”, diz o barbeiro. Guevara pensa até em mostrar o passaporte falso: “Estas me tomando por otra persona”. Sem escutar, Vilsinho puxa Guevara pelo braço. “Vamos tomar uma pinga no bar no Bar do Toninho. Há quanto tempo a gente não se vê, heim Guevara”. E vai puxando o visitante pelo braço. “No puedo, señor. Estou esperando otra persona”. “Deixa pra lá, ele acha a gente no bar”. “Pinga” é denominação dada ao membro masculino, em gíria hispânica. Guevara levanta as sobrancelhas mas se contém. Lembra tratar-se do rum brasileiro. A bebida até que o aliviria do estresse capaz de lhe provocar uma crise de asma, daria tempo de achar uma solução.

No Bar do Toninho sentam na mesa onde está uma mulher com cara de quem só trabalha na horizontal. Vilsinho fala: “Querida, este é o Guevara que te falei. Tem a voz do Lucho Gatica. Canta aí o “Sabor a Mi”. Guevara rebate: “No se cantar, señor”. Guevara levanta para dar o fora, mas vê entrando no bar uma pessoa que varre o ambiente com os olhos como se estivesse a procura de alguém. Sabe que seu contato finalmente chegou. O bêbado insiste: “Canta, Guevara”. Che vai em direção ao recém-chegado e solta a senha: “Soy un hombre sincero...” O contato confirma: “De donde crecem las palmas”. São versos do grande poeta cubano José Martí, inspirador da primeira estrofe da canção “Guantanamera”. Ambos deixam o bar. Da porta Guevara solta a sua bela voz: “Passarám mas de mil años, mucho mas. Pero alla como aqui, en la boca levaras, sabor a mi”. Os dois soltam fumaça dos charutos cubanos, Guevara solta em círculos como só ele sabia fazer. Vilsinho diz para a mulher: “Não ti falei que a voz dele é igual a do Lucho Gatica?!” Guevara pegou o trem da tarde para Corumbá, desgostoso porque os companheiros não o levaram para conhecer a Eni, “la major putaneria de latinoamerica”, ainda que só para carimbar o passaporte falso. O companheiro Fidel morreria de inveja. E lá foi Guevara levado pelo trem para se tornar um mito. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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