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Por que matamos tantos?

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 2 min

Dinheiro, bens, amor, paixão, fama, sucesso... De tudo, o maior capital que temos é a vida. Perder ou deixar de ter qualquer outra coisa que valha, jamais, nunca, nada será tão absoluto quanto continuar a existir. Por mais triste, precária ou injusta que seja, ainda é esta a essência que nos impele a mergulhar neste jogo tão regrado e marcado e ao mesmo tempo tão frágil e impreciso. Por que, então, matamos? Bauru ao bater o número limite “aceitável” pela ONU para homicídios deveria se enrubescer, ao contrário dos tantos pálidos corpos tombados. No momento que escrevo este texto já se foram 38 vidas de forma violenta na cidade, só neste ano.

Mata-se por pouca razão, por qualquer desculpa e por todo motivo. Relevar uma fechada no trânsito, um negócio mal feito e um amor perdido é mais fácil quando percebemos que o mundo nos reserva muito mais do que os amargos momentos que tanto nos cegam.

Quando somos, ou pelo menos nos sentimos felizes, nos damos mais tempo para refletir e, nesta ínfima fração, impedir ações limites e irreversíveis. A felicidade, a alegria e o bem-estar são tão importantes para um povo quanto o crescimento, o desenvolvimento e o progresso da cidade em que ele vive. Bauru, mesmo grande e cada vez mais indomável, precisa e pode ter instrumentos perenes que produzam felicidade, que promovam o encontro das pessoas e nos façam compartilhar a magia do viver.

Ajuda a dar certo, também, conhecer melhor as armadilhas das nossas emoções potencializadas pela trilha sonora do mundo globalizado. Sensibilizados, choramos e clamamos por justiça ao filho da atriz que morre atropelado em cima do skate no Rio, e negligenciamos a morte do vigilante em sua bicicleta no Estoril, ambas tragédias ocorridas com a mesma violência, descaso e desrespeito. Precisamos ficar mais próximos do mundo do qual fazemos parte, e fazê-lo melhor. Ou nos reduzir ao obscuro otimismo do Dr. Pangloss, um professor que habita o clássico “Cândido” de Voltaire:

“É claro que as coisas não podem ser diferentes de como são; pois, como tudo foi criado com um fim, este deve ser o melhor fim possível. Por exemplo, o nariz foi criado para apoiar os óculos, por isso usamos os óculos. As pernas, como todos podem observar, foram criadas para as calças.

As pedras foram feitas para que tomassem a forma de castelos; assim, meu senhor tem um lindo castelo porque o maior barão da província deve ter um lindo castelo. E, já que os porcos foram feitos para serem comidos, comemos porco o ano inteiro. Então, aqueles que dizem que tudo está bem, na verdade, estão dizendo tolices. Eles deveriam dizer que tudo está ótimo!”. Paro por aqui.

O autor, Luís Victorelli, é jornalista. lvbauru@gmail.com

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