Articulistas

Enfim, a maturidade...

Maria Dvanil D'Ávila Calobrizi
| Tempo de leitura: 3 min

A maturidade vem acompanhada da sabedoria, da experiência, somente quem já viveu muito tem o dom de saber mais, pois se encontra nessa fase da vida com os seus demônios exorcizados e com os seus deuses, outrora adorados, agora queimados. A valorização da velhice não deve se confundir com a demagogia que tenta negar o real e natural declínio físico que acompanha a velhice, mesmo porque o valor de um ser humano não se limita apenas no seu desempenho físico, mas na sua dignidade peculiar de ser humano, nos seus talentos particulares, no seu mundo afetivo e sua experiência única de vida. Não existe melhor maneira de envelhecer do que permanecer útil, respeitando as suas forças, os seus limites. No entanto, essa sensibilidade só é propriedade daqueles que cultivam valores menos efêmeros do que os cultivados nesta sociedade da prevalência do “ter sobre o ser”.

Em condições normais todo ser vivo segue uma trajetória inflexível, composta por concepção, desenvolvimento, nascimento, crescimento, maturidade, envelhecimento e morte.

Como podemos verificar nessa linha de ocorrências, a maturidade chega enquanto caminhamos para o envelhecimento.

Com a influência dos meios de comunicação em nossas vidas, certamente alguém já notou a magnitude do artista na maturidade, principalmente se acompanhou toda a sua trajetória, ficará claro que o ápice de seu brilhantismo ocorre quando ele envelhece.

Esse fenômeno da valorização e do respeito à velhice entre o meio artístico, o meio político e intelectual, liberta o idoso de rotulações estigmatizadoras da velhice, incentivando-o à vida produtiva, enquanto possuir condições para isso.

Chegaremos à velhice de acordo como estamos vivendo hoje, pois as doenças comuns do envelhecimento são relacionadas às condições de vida que tivemos durante toda a nossa existência. É de extrema emergência uma política mais abrangente destinada ao “envelhecimento”, não voltada apenas aos “cuidados dos idosos”, pois prevenir é mais fácil e menos dispendioso do que curar.

Na maturidade é tempo de construir, pois já foi vivido o suficiente para saber que só se perde aquilo que se tem. Viver e aproveitar o máximo aquilo de que ainda dispomos, parece ser a chave da questão. Deixar a amargura, a falta de esperança e o inconformismo tomarem conta da nossa existência, não estaremos contribuindo com absolutamente nada para um envelhecimento feliz.

Penso que, procurar viver com serenidade e sabedoria cada etapa de nossa vida é o segredo maior para usufruir dos benefícios advindos da maturidade e da velhice. Para isso temos de possuir clareza da maneira pela qual concebemos a vida como nos revela Norberto Bobbio: “como uma inacessível montanha que temos de escalar, ou como um rio onde estamos imersos e corre lento para a foz, ou como uma selva na qual vagamos sempre incertos sobre o caminho a seguir para chegar a uma clareira”.

Se não tivermos o necessário conhecimento sobre o nosso corpo e nossa própria dinâmica de vida, com certeza nos deixaremos levar pelos mitos, e muito mais, nos curvaremos diante das inverdades e imposições externas, perdendo cada vez mais a nossa auto-estima, deixando de “saborear” o tempo do acúmulo de experiências e da sabedoria.

Parafraseando Affonso Romano de Sant’Anna, não podemos envelhecer mal, desconfortavelmente, com uma infelicidade crua na alma, com um rancor nos cobrindo a pele, a escrita e o gesto. Não podemos ser apenas críticos azedos do mundo ou até mesmo cítricos, sem nenhuma doçura nas palavras, com fel nos olhos, pois “nunca vi o Sol se queixar no entardecer. Nem a Lua chorar quando amanhece”. Tudo na vida tem o seu tempo...

A autora, Maria Dvanil D´Ávila Calobrizi, é gerontóloga social - professora da Faculdade de Serviço Social - ITE/Bauru

Comentários

Comentários