Com um sonho na cabeça e uma vontade incontrolável de ajudar o próximo, a empresária Elza Mesquita Guerreiro e um grupo de voluntárias de Agudos (13 quilômetros de Bauru) estão realizando um trabalho inédito na região. A construção de casas para as famílias de deficientes que vivam na extrema pobreza.
O Projeto Transformação que começou em 2007 e que acolhe a Associação do Coração Misericordioso de Jesus, a Acomje, já entregou quatro casas e têm mais duas em construção. “Estamos erguendo a 6a casa. A mão de obra é a prefeitura que oferece. O material é doado e adquirido com recursos de promoções. Fazemos bazar, pastelada, chás”, explica a fundadora do projeto e da associação.
Para ela, o sonho se transformou em missão. “Eu sonhei em cuidar das crianças especiais que vivem na linha de pobreza. Encarei a situação como uma missão e passei a perseguir o meu objetivo.”
O primeiro passo foi reunir as amigas. “Era 2005. Eu imaginava que as famílias de deficientes não melhoravam por falta de vontade, mas deparei com uma situação muito pior do que a imaginei. No primeiro caso já verificamos as condições que a criança era tratada. Observei que não dava para encarar a situação de maneira simples. Tínhamos que ousar.”
A empresária percebeu que a família, além de morar em um casebre, não contava com a estrutura mínima para um ser humano viver. “A família morava em casebre sem as condições mínimas de higiene. Não tinha nem banheiro. Como poderíamos falar em banho. Usavam uma fossa que nem era coberta, enfim, eles viviam muito mal e para tratá-los precisava construir uma casa.”
A construção foi planejada durante dois anos. “Nesse período, visitamos a família várias vezes. Tentamos arrumar a casa, mas não tinha jeito. Fomos atrás do proprietário e conversamos. Ele fez a doação do terreno e nós começamos a arrecadar dinheiro e a receber doações de materiais para erguer a obra. Queríamos moradia digna para a família.”
A casa já foi entregue e ficou em R$ 25 mil. O jovem tem 22 anos e deficiência severa. “A casa tem dois quartos, sala,cozinha e banheiro. Descobrimos que a mãe também é portadora de deficiência. Tivemos que trabalhar com a família toda.”
Além da casa, o projeto teve que adotar um cuidador para que a família se adaptasse na nova moradia e não voltassem a estaca zero. A cuidadora que preferiu não ser identificada, conta que os cinco integrantes da família são incapazes. “Eu faço comida, ajudo na arrumação da casa e oriento-os a tomarem banho e a usarem o vaso sanitário.”
Elza Guerreiro conta que a família vivia num lixão. “A negligência com o jovem especial já tinha sido denunciada ao Ministério Público. O promotor tinha pedido para que o Conselho Tutelar retirasse ele da família. Fomos descobrir o porque da negligência. As pessoas denunciam mas não vão ver a causa. Descobrimos que a causa de tudo o que acontecia com o menino era a condição da família. A vida dele mudou porque abraçamos a causa.”
Na opinião da empresária as famílias que estão sendo assistidas não têm estrutura. “Não estão preparadas para cuidar do deficiente. Não contam com a mínima condição psicológica e financeira. Estamos tentando melhorar a vida deles. A comunidade coopera muito com o nosso trabalho.”
Terreno será ocupado por 40 casas
Os oito mil metros quadrados de terreno doados pela prefeitura de Agudos serão ocupados por 40 casas e pela sede da associação, explica Rosemeire Magali Cornélio. “As casas serão construídas ao redor da sede da associação para que a gente trabalhe com a família toda.”
A ideia é atender as famílias com trabalhos educativos. “Vamos oferecer cursos de profissionalização, como o de panificação para as mães. Fazer o dia da beleza para aumentar a autoestima dessas mulheres que não têm condições financeiras de se cuidar.”
Mais a longo prazo, as voluntárias planejam tornar a sede uma casa/dia. “Queremos que a associação se torne uma casa/dia, porque os deficientes da nossa cidade não têm um lugar para passarem o dia. Para uma mãe que tem um filho portador de deficiência é importante vê-los bem alimentados e bem cuidados. Para elas, vamos oferecer cursos de geração de renda. É um suporte que pretendemos dar às famílias de deficientes que se encontram em situação de miserabilidade.”
O número de casas previstas pela associação não é suficiente para a demanda. “Agudos tem 285 deficientes e cerca de 80 vivem em situação de risco. A gente estaria atendendo as famílias em extrema pobreza. Posteriormente, atenderemos aquelas que necessitam de uma casa, porém não vivem na extrema pobreza, mas pagam aluguel.”
Os imóveis, informa Rosemeire Cornélio, são oferecidos em comodato de cinco anos renováveis. “Estamos usando esse recurso para evitar o comércio das casas. Muitos não têm consciência e podem tentar vender ou trocar.”
Foi entender o problema
O sonho da empresária foi além do senso comum. Para entender melhor como viviam as famílias abaixo da linha de pobreza, ela cursou, antes de iniciar o projeto a faculdade de Serviço Social na ITE. “Só depois é que parti para a empreitada. Em um grupo de oração senti que era o momento exato de começar o trabalho, a minha missão. Eu acredito que tenho que fazer algo por aqueles que necessitam, por tudo que já recebi de Deus”, ressalta Elza Guerreiro.
A primeira casa e a segunda casa foram feitas na raça, na opinião da empresária. A partir da terceira o governo municipal passou a contribuir. “Em 2007 fundamos a associação para poder receber a subvenção municipal que passou a ser paga em 2009. A segunda casa também foi feita sem ajuda financeira da administração municipal. Na terceira casa recebemos R$ 1.980 e este ano, R$ 2.580. Em todas as construções a mão de obra foi da prefeitura.”
Segundo a idealizadora do projeto, além da casa foi necessário comprar os móveis. “Eles não tinham nada. Precisamos comprar ou receber por doação os móveis. Caso contrário não conseguiríamos levar em frente a intenção de oferecer qualidade de vida às famílias carentes.”
Uma das casas foi construída para atender uma necessidade de uma cadeirante que há dois meses morreu. “Era uma menina. A família toda desestruturada e a casa que eles moravam estava em péssimas condições. A casa foi construída com portas mais largas e acesso ao banheiro. A casa é maior porque são nove pessoas na família.”
Uma terceira família beneficiada pelo projeto são portadores de QI baixo. São cinco pessoas que estão sendo observados. “As crianças têm déficit de aprendizagem. Com 10 e 11 anos não sabem nem ver a hora. Estamos fazendo o acompanhamento e avaliação do nível deles. Essas pessoas viveram uma vida inteira de geração em, geração num casebrinho. Sem água, sem luz , sem banheiro, sem nada. As criança em situação de risco. Uma vizinha cuidava e o Conselho Tutelar acompanhava. Hoje, eles moram com dignidade.”