Os primeiros diagnósticos de aids ocorreram nos EUA e Haiti, no início da década de 80. Os primeiros portadores eram pacientes homossexuais de Los Angeles e Nova York e por isso foi inicial e equivocadamente apelidada de “peste gay”. Outra característica comum dos primeiros pacientes portadores de aids foram viagens curtas em finais de semana e feriados para o Haiti em vôos fretados nos EUA. O Haiti da época já era um país muito pobre, com índice elevado de prostituição masculina e feminina. Passear e namorar no Haiti era um programa muito econômico para os homossexuais americanos.
As primeiras hipóteses para explicar o aparecimento da aids envolviam diretamente o Haiti. Uma pergunta era inevitável: mas como este vírus surgiu no Haiti? Os pesquisadores de várias áreas do conhecimento estabeleceram teorias e nos últimos tempos as evidências comprovaram: o vírus da aids tem origem africana. Mas como ele foi parar no Haiti, na década de 70 e 80?
Em 1965, depois de instabilidade e revolta popular, o Congo Belga na África Central, ao norte de Angola, ficou independente e passou a chamar-se Zaire, em 1971. Logo após a independência, o presidente-general MobutuSeseSeko promoveu uma mudança cultural, pois não queria vestígios de civilização européia no país. Havia uma mágoa com os belgas que os exploraram por décadas. Mas o país não tinha cidadãos preparados: não havia sequer um enfermeiro para ser ministro da saúde e quiçá um médico. Para montar sua estrutura, o Zaire precisaria da ajuda de outras nações e foi procurá-la em um país de população negra e que falasse a mesma língua francesa: o Haiti.
Centenas de haitianos viveram no Zaire durante 5 a 6 anos a fim de auxiliarem na formação de pessoal especializado como médicos e administradores públicos. Os haitianos viviam principalmente na capital do Zaire, Kinshasa, onde contraíram o vírus e na volta o trouxeram para seu país, sem contar que muitos mudaram se para a EUA e Europa logo depois.
A aids entre os haitianos e africanos deve-se à exposição ao vírus e não por que têm maior susceptibilidade. Na população africana e haitiana, a doença ocorre de forma generalizada e os pacientes apresentam as mesmas manifestações clínicas e imunológicas dos pacientes europeus. Esta diferença ocorre pela pobreza generalizada e condições inadequadas de saneamento. No Haiti, além dos fatores sócio-econômicos indesejáveis e da promiscuidade heterossexual e homossexual, ainda existe o vodu, um rito espiritual comum que caracteriza-se pela manipulação de cérebro e sangue humanos facilitando a transmissão do HIV. Os participantes do ritual ainda se cortam propositadamente e trocam porções de sangue.
Nas últimas semanas as notícias do Haiti revelam uma epidemia de cólera, uma doença que mata muitas pessoas e é transmitida especialmente na população carente de saneamento básico e condições mínimas de higiene pessoal. Mas, quase que inacreditavelmente, qual foi a provável origem da doença no Haiti, muito embora a ONU ainda negue? A missão humanitária da ONU que o Brasil lidera recebeu como participantes alguns soldados do Nepal, um pequeno e pobre país localizado entre a Índia e a China no qual está localizado o famoso Monte Everest, o pico mais alto do mundo. Foi no Nepal que Buda nasceu.
As bactérias do cólera no Haiti são do mesmo tipoprevalecente no Nepal, segundo revelam os últimos exames bioquímicos. No Nepal existem numerosos casos de cólera quase que epidemicamente pois a densidade populacional é uma das maiores do mundo, com 184 habitantes por quilômetro quadrado. No país vivem quase 30 milhões de pessoas. Os seus soldados ao participarem da missão no Haiti podem ter levado as bactérias e plantado a doença em um ambiente catastrófico em função da pobreza secular, mas muito piorada como se isto fosse possível, pelo poderoso terremoto que praticamente destruiu o pouco de estrutura urbana que o pais possuía. A bactéria do cólera multiplica-se rapidamente no intestino humano e produz uma potente toxina que leva a uma diarreia fulminante. A transmissão é feita pelas fezes e água contaminada.
Uma epidemia de cólera pode matar muitas pessoas no Haiti e cada notícia que chega deste pequeno e pobre país insular sensibiliza e remete nos a duas reflexões:
1) Será que o ditado popular: um raio nunca cai duas vezes, ou mais, no mesmo lugar, é verdadeiro?
2) O Brasil deve tomar todos os cuidados necessários para ajudar outros países em missões humanitárias, tanto com os nossos cidadãos, quanto com aqueles que serão ajudados. Mesmo que de forma segura, é admirável a abnegação das pessoas que voluntariamente participam destas ações em outro locais distantes para ajudar o próximo com o qual mantêm apenas uma relação de semelhança quanto a sua natureza humana. Isto que é solidariedade!
O autor, Alberto Consolaro, é professor titular da USP em Bauru e colunista de Ciências do JC